Mostrar mensagens com a etiqueta Digital. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Digital. Mostrar todas as mensagens

25 de Abril de 2014

"...the cage..."
THE CAGE
Martin Vaughn-James
Coach House Books, 2013
192 págs., P&B, digital

Há coisas que nos ultrapassam, que desafiam a nossa compreensão e que resistem como mistérios insondáveis.
Em 1975, Martin Vaughn-James publicou The Cage, o seu "romance visual" que surge na sucessão de uma série de livros que exploram a noção natural de "se duas páginas, porque não dez?".
The Cage caracteriza-se pela sua ausência de personagens, toda a existência humana sugerida pelos espaços e objectos dos sentidos (como muito bem enunciado por Seth na introdução), cada página, uma vinheta, uma janela única para corredores e paisagens que drenam umas nas outras, uma auto-referenciação espacial e temporal, como um novelo cujo início e fim estão escondidos no seu interior.  As imagens clinicamente desenhadas são acompanhadas por um texto igualmente enigmático, comentário do que é observado, interpretação do que não é. Um universo distante do concreto e real.
Se calhar a jaula ou gaiola que Vaughn-James descreve é a nossa realidade, o nosso cérebro ou o tempo. O autor declara-se como órfão da obra, tal a vida que esta ganhou para além de si e, talvez, da sua inspiração inicial.
A minha interpretação? A jaula é a página, a vinheta que usamos para explorar o mundo interior do livro. E o desconforto e perplexidade que obtemos da leitura trá-la para dentro de nós.

7 de Outubro de 2013

"Each one of these comics has a story"
INKSHOT
Hector Lima, Pablo Casado et al.
Monkeybrain Comics, 2013
268 págs., P&B

A 18 de setembro de 2013 estreou-se, exclusivamente em formato digital, na plataforma online de venda de banda desenhada Comixology, a antologia "Inkshot". Publicada pela Monkeybrain Comics, a antologia reúne 45 histórias curtas, de três a cinco páginas, feitas por 75 “novos” autores que têm a particularidade de terem todos como língua materna a portuguesa. Puxada a brasa, desengane-se o leitor, a antologia é exclusivamente brasileira.
Quando em 2008 Hector Lima se associou a Pablo Casado partilhavam uma ideia: organizar uma antologia de banda desenhada para divulgar autores brasileiros em terras do Tio Sam. Mais, planeavam que esse conjunto de histórias fosse representativo de uma “identidade brasileira”. Seria possível, no meio de tanta diversidade de influências, géneros e estilos, estabelecer uma visão representativa da “bd Brasil”?
“Inkshot” é a tentativa de resposta à pergunta e a melhor possível. Do western (“Black Durango”) à comédia (“Cosmogonia”) ao terror (“Canibal Lunchbox”); do cartoon (“Hapiness2”) ao fotorrealismo (“Lapse”) ao manga (“Running in the Shadows”), temos de tudo um pouco no livro. Há um grande número de autores talentosos que preenchem as páginas do livro e de uma consistência pouco comum em iniciativas do género. Com um espectro tão largo de abordagens, a escolha inteligente pelo preto e branco trouxe uma coesão à obra que seria difícil de outra forma.
O principal problema do livro é relativo à tradução dos textos originais em português para o inglês. A maioria das histórias têm traduções competentes mas há umas cujo inglês é praticamente incompreensível. Se para mim, que não tenho o inglês como primeira língua, esses textos foram de um desconforto extremo (“My life was special” é um dos exemplos que me custou especialmente - ver a segunda vinheta, página 245), nem imagino a reacção dos nativos. As más traduções prejudicaram o que foi contado e relegaram ao esquecimento narrativas imaginativas que mereciam mais. Investir num tradutor profissional para a obra completa teria sido uma boa ideia.
Resumindo, “Inkshot” é uma antologia bem conseguida que apresenta catadupas de talento com algumas falhas que podem dificultar a sua recepção pelo público habituado a ler em inglês.
Pode ser que deste lado do Atlântico também seja possível fazer algo semelhante.

Originalmente publicado aqui.

1 de Agosto de 2013

"The Fez will return!"
THE FEZ
Roger Langridge
Hotel Fred Press, 2013
10 págs., P&B

Roger Langridge é um cartunista veterano neozelandês que tem feito um pouco de tudo. No Reino Unido trabalhou nas instituições que são o Judge Dredd e o Doctor Who, nos Estados Unidos anda, actualmente, com o Popeye debaixo do braço e já passou pelo Thor e pelos Muppets, sem falar dos seus projectos pessoais como Snarked! e Fred the Clown. Sempre com um humor simpático, sempre com críticas positivas mas também sempre sem o proveito e, se pensarmos bem, sem a fama.
The Fez é uma bd curta e divertida cujo protagonista é o arquétipo do herói pulp: um vigilante que luta contra o crime com características que o fazem mais do que o comum dos mortais, neste caso, a invisibilidade, o barrete mourisco que lhe dá o nome e um monóculo dignificante que acompanha um sentido sobrenatural de elegância.
Neste primeiro volume das suas aventuras somos apresentados a uma galeria de inimigos singulares, ao dilema que estes enfrentam (particularmente um deles) por terem o Fez como adversário e ao poder intoxicante e transformador da realidade de substâncias que podem tornar o mais virtuoso dos heróis na escumalha da sociedade, por fim, a promessa do regresso do herói para nos ensinar as suas qualidades e aos seus antagonistas a admiração e temor que tanto merece. Portanto, não percam o próximo episódio porque nós também não!

10 de Fevereiro de 2013

"I´m sorry, Dave. I´m afraid I can´t do that."
PROFESSEUR CYCLOPE
AA.VV.
Silicomix/ARTE/Reprodukt, 2013
Formato digital, tetracromia

Seguir blogues de autores de bd traz consigo particularidades: uma negativa é o desejo de actualizações constantes que raramente é satisfeito; uma positiva é saber de projectos futuros antecipadamente, o que nos leva de volta à primeira.
O ano passado, Cyril Pedrosa veio ao FIBDA para nos mostrar a sua bd Portugal, uma semi-autobiografia extremamente bonita que um destes dias vai ter direito a post neste blogue. Hervé Tanquerelle é um dos autores que conheço de uma revista de bd publicada por Les Humanoïdes Associés chamada Lucha Libre , onde se explorava, muitas vezes de forma paródica, a temática da luta livre mexicana; a secção de Tanquerelle era protagonizada por uma criança obcecada pelos seus heróis luchadores e que se metia sempre em sarilhos quando os tentava imitar. Eu seguia o blogue de cada um destes autores já há algum tempo quando, casualmente, reparei em algo que tinham em comum: referências múltiplas a algo que tinha o nome de Professeur Cyclope.
Inspirados pela tradição francófona de revistas de banda desenhada mensais com histórias serializadas, uma fórmula de grande sucesso inclusive em Portugal, e cientes das novas tecnologias de divulgação e reprodução digital, o colectivo editorial Silicomix, no qual se incluem os dois autores em epígrafe e acrescem-se Gwen de Bonneval, Brüno e Fabien Vehlmann, tem a ambição de querer ser uma versão electrónica de revistas como a Pilote, Metal Hurlant ou À Suivre, ou seja, uma revista de bd com uma linha editorial forte ao serviço de uma alternativa excitante e coerente. Mas uma alternativa a quê?
Alternativa a uma crise cada vez mais marcada ao nível da venda das publicações em papel à qual a bd também não escapa. O objectivo é explorar as possibilidades narrativas potenciadas por estas novas formas de leitura e, claro, ter acesso a um número maior de pessoas.
O colectivo associou-se à cadeia televisiva franco-germânica ARTE que, para além de disponibilizar  online e gratuitamente uma versão menos sofisticada de cada número da revista, se coordenou com uma editora alemã, a Reprodukt, que trata do lançamento da edição germânica.
No dia 1 de março teremos acesso à versão final do Professeur Cyclope mas entretanto é possível folhear digitalmente uma demonstração do que esperar. Em relação ao conteúdo, o que se pode concluir da versão preliminar é que há uma grande variedade de estilos, géneros e temas, podendo ir da strip de humor com animais (antropomórficos ou não) até uma espécie de híbrido entre bd e animação (banda animada?) sobre duas colegiais às compras. Há de tudo para todos e pretende alcançar, li algures, um público ado-adulte (os franceses adoram abreviar tudo).
Uma coisa diferente para um público diferente a crescer em número. A ver o que sai desta experiência.
Por fim, deixo-vos com o vídeo promocional da revista, onde de forma humorística se dá conta de como será a interacção com o produto final. 


La question essentielle du Professeur Cyclope de Tangui Jossic no Vimeo.