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8 de Agosto de 2016 (I)

"What on Earth are you supposed to be?"
WILD'S END, VOL. 1: FIRST LIGHT
Dan Abnett & I.N.J. Culbard
BOOM! Studios, 2015
160 págs., tetracromia, capa mole

Já vi Wild's End descrito várias vezes como um cruzamento entre "O Vento nos Salgueiros" e  "A Guerra dos Mundos" e, embora as personagens sejam efectivamente animais antropomorfizados e Wild's End relate uma invasão extraterrestre por criaturas insectóides, apresentar esta bd como meramente um híbrido das duas obras supracitadas é simplista e, francamente, preguiçoso.
Para já, Dan Abnett não é exactamente um novato nas lides da ficção científica, tem no seu currículo extenso um longo percurso na revista seminal britânica 2000 AD, já trabalhou para mais de uma dezena de editoras e nem vou referir as porradas (sim, porradas) de romances de ficção científica (prosa mesmo) debaixo do seu braço (teria que ser um braço extremamente longo, a sério). É ele, sem sombra de dúvida, o dínamo por detrás de Wild's End: em poucas páginas consegue criar personagens memoráveis, os diálogos são naturais e interessantes e a acção está bem compassada. Mais, os textos que acompanham a bd (excertos de diários, apontamentos jornalísticos, capítulos de livros de ficção científica de 3ª categoria) aprofundam o contexto e personalidade do elenco.
Por outro lado, temos I.N.J. Culbard, um autor de bd quase tão prolífico quanto Abnett, que num desenho mais simplificado que o seu habitual (nem por isso), premeia-nos com uma bd de leitura de compreensão fácil mas nem por isso telegrafada.
Carnificina à parte, Wild's End é um texto sobre pessoas normais em situações extraordinárias e sobre como ser humano (mesmo quando a Humanidade é representada por diferentes dos nossos colegas animais) em momentos de crise implica trabalhar em conjunto.

7 de Agosto de 2016

"Keep up, new kid."
PAPER GIRLS, VOL.1
Brian K. Vaughan & Cliff Chiang
Image Comics, 2016
144 págs., tetracromia, capa mole


A onda de nostalgia pelos anos 80 está em alta (ver abaixo) e tem permitido revisitar conceitos interessantes.
Já ouviram falar de Brian K. Vaughan (Saga, The Private Eye)? Já? Ok. 
E de Cliff Chiang (Wonder Woman)? Também?
Então têm mais ou menos noção do que esperar de Paper Girls.
Stony Stream é a epítome dos subúrbios americanos, vivendas com  sebes brancas, onde nada se passa e de onde todos os jovens querem escapar.
Portanto, quando Erin Tieng se levanta de madrugada para começar o seu dia (1 de Novembro de 1988) a distribuir jornais e se depara com ninjas disformes, naves espaciais e o fim do mundo, entramos no departamento do parasubúrbio.
E a partir daqui as coisas só começam a ficar mais complexas, sem querer estragar leituras, nomeadamente, viagem no tempo e guerras intergeracionais transtemporais.
Este primeiro volume (colecciona os números 1 a 5 dos fascículos mensais) não acaba por explicar grande coisa, serve para introduzir e para cativar, deixando a resolução das questões levantadas para números posteriores. Faz bem. É precisamente o mistério e o acumular de dúvidas que dá charme à leitura de Paper Girls.
Cliff Chiang ajuda bastante ao encanto do livro, o seu traço angular e pop! (sim, pop!, se depender de mim, passa a ser termo técnico a partir de agora) é perfeito para a história contada e é magnificamente complementado pelas cores de Matt Wilson (mais um prodigioso colorista à laia de Jordie Belaire - certo, também já ouviram falar dela...).
Se querem um retorno ao passado longínquo de há 30 anos, misturado com ficção fantástica, personagens interessantes e arte linda, este é o livro para vós.



"Should I stay or should I go"
STRANGER THINGS (2016)
De Duffer Brothers
Com Wynona Ryder, David Harbour  et al.
8 episódios de 55 min

Melhor Tarantino que o próprio Tarantino, Strangers Things é um regresso nostálgico aos temas e estética dos anos 80 de uma forma tão completa e tão bem sucedida que consegue que o espectador se esqueça de que se trata de uma série de 2016.
O elenco é extraordinário, particularmente o juvenil, que é absolutamente credível.
Uma ode a uma era do fantástico que está marcada a ferros no subconsciente da maioria dos adultos da actualidade.

5 de Agosto de 2016

"Batman doesn't seem to think so."
WE ARE ROBIN #4
Lee Bermejo & James Harvey
DC Comics, 2015
22 págs., tetracromia, floppy

Inspirados pelo herói adolescente Robin, uma série de outros adolescentes decidem emulá-lo e patrulhar as ruas de Gotham.
O número 4 da série We Are Robin (recentemente cancelada em mais um, sim, mais um, renascimento da DC Comics) explora uma das consequências menos boas de quem decide adoptar o estilo de vida vigilante. O número reflecte sobre a morte de um dos Robins após o seu derradeiro acto de heroísmo e, para tal, opta pela perspectiva de Riko, uma das colegas do Robin falecido. Acoplada à narrativa, temos os paralelismos com o livro seminal de William Golding, Lord of the Flies, e as referências ad nauseum às redes sociais, esse antro de exibicionistas e emocionalmente carenciados.
Honestamente, não foi pela boa recepção ao título ou por particular enamoramento pelo universo DC que optei por ler este número, acompanho James Harvey no Tumblr (mais uma rede social asquerosa) e as páginas partilhadas por ele conquistaram-me. 
A arte de Harvey sobressai particularmente porque opta por uma estética retro - cores garridas típicas de outros tempos da bd americana e que tão bem se coadunam com os temas do super-heroísmo, associadas à sua capacidade de sobrepor uma quantidade enorme de informação numa página - que realmente é o melhor desta bd.
O que é que se pode tirar daqui? 
Primeiro, a bd pode cativar só pelo seu aspecto gráfico; segundo, se o Batman não concorda com o que fazes, tu calas a boca e metes o rabinho entre as pernas (a Batgirl arma-se em carapau de corrida, mas nesta versão não está presa a uma cadeira de rodas).

25 de Janeiro de 2016

"Someone who's a hero for fun."
ONE-PUNCH MAN, VOL. 1
ONE & Yusuke Murata
Viz Media, 2015
200 págs., P&B, capa mole

Paródia japonesa do género de super-heróis, "One-Punch Man" não é mais do que um shonen típico com uma origem improvável, particularmente tratando-se do mercado japonês. O autor conhecido pelo pseudónimo ONE escreveu e desenhou o webcomic original que rapidamente alcançou popularidade - falamos de dezenas de milhões de visualizações. Depois, veio a passagem para o formato físico, agora com a arte de Yusuke Murata (mais conhecido por ilustrar "Eyeshield 21", série de temática desportiva onde colaborou com Riichiro Inagaki) - que, aliás, traz maior interesse ao projecto, já que o traço de ONE é menos elegante -, e, como seria de esperar, uma inevitável série de anime que está a chamar ainda mais atenção graças às suas espectaculares cenas de luta que tanto atraem os jovens de todas as idades.
Este volume inaugural consiste no relato episódico de vários encontros entre a personagem titular, Saitama, um super-herói anedónico com poderes de origem misteriosa, e uma série de inimigos que consegue derrotar com um único murro (daí o seu nome e o seu estado de espírito). Esta ênfase nesses contactos esporádicos com monstruosidades diversas coloca em segundo plano a abordagem muito superficial das motivações da personagem que acaba por ser unidimensional e até difícil de empatizar, apesar das pouco subtis pistas relativas ao seu nobre carácter.
O desenho simplificado de Murata transmite bem a simplicidade da personagem e permite, em momentos de maior pormenor, caracterizar bem as cenas de acção.
Este primeiro volume não me cativou o suficiente para continuar a ler o manga. Para além de uma história rudimentar (sim, eu sei que se trata da adaptação directa do webcomic e somente uma introdução mas mesmo assim...), sem grandes objectivos ou ambições, as próprias cenas de combate, que supostamente são o zénite do livro, são, perdoem a expressão, "batidas" e não trazem a excitação de outras leituras shonen.
Se procuram uma leitura japonesa de inspiração no género de super-heróis tipicamente americano, sugiro antes "My Hero Academia" de Kōhei Horikoshi, na minha opinião, em tudo superior a "One-Punch Man".

14 de Agosto de 2015

"When you look under the surface of things, 
what do you see?"
THE SURFACE #1
Ales Kot & Langdon Foss
Image Comics, 2015
24 págs., tetracromia, floppy

Ales Kot é um daqueles escritores que se infiltra numa estrutura, modificando-a e corrompendo-a, fazendo dela vítima de uma perspectiva única.
O exemplo mais flagrante (digo, com mais visibilidade) do trabalho de Kot é "Secret Avengers", um entre outros títulos adjectivados dos Vingadores. Nos quinze números que escreveu, Kot subverteu convenções, introduziu personagens verdadeiramente originais (como, por exemplo, uma bomba com consciência de si e do mundo, apreciadora de gelados) e manipulou de forma surpreendente as expectativas do leitor, conciliando-as com as características mais populares de personagens bem estabelecidas (refiro-me directamente à introdução de Deadpool na narrativa).
Contudo, se queremos conhecer um autor, o mais aconselhado seria começar pelo seu trabalho independente, sem limitações editoriais à mistura. Kot já tem uns poucos de trabalhos "seus" debaixo do braço, os mais notáveis "Change" e "Zero", ambos publicados pela editora Image Comics.
"The Surface" vem na sequência desses trabalhos, especificamente de "Change", sendo quase uma sequela não oficial (segundo o que é descrito neste número), e pertence também ao mesmo ramo genealógico do trabalho de Warren Ellis em "Transmetropolitan" (com direito a "referência obrigatória" no texto) e de "The Invisibles" de Grant Morrison. Afirmo-o muito pela forma como está estruturado este primeiro número, onde se misturam segmentos de entrevista ao autor com comentários à obra presente e às anteriores; reportagens sobre o mundo corrente da história - pequenos fragmentos que se complementam e acrescentam profundidade ao texto principal.
Para além destes momentos meta-literários, a afinidade anunciada aos autores anteriores também se vê no quão difícil a leitura pode ser, a certa altura, o leitor tem de gerir três "vozes" diferentes, com informação paralela e interligada, o que faz com que a leitura tenha que efectivamente parar a determinada vinheta.
A história é "simples", o mundo não é mais que uma construção holográfica e um grupo de 3 hackers decidiu ir à procura do ponto de acesso de um nível superior de realidade ao qual chamam "a superfície". Seja esta a superfície das páginas do comic em si (e aqui entramos em território Morrisoniano), seja uma referência mais Burroughsiana, deixo ao critério de cada um.
A arte de Langdon Foss é sólida (uma espécie de Geof Darrow sem o pormenor excessivo) e as cores de Jordie Bellaire suplementam-na perfeitamente, da mesma forma como nos tem habituado em quase todos os projectos em que tem trabalhado (a sério, esta mulher é uma heroína, o seu nome é praticamente sinónimo de qualidade).
A verdade é que "The Surface" é uma leitura desafiante e confusa, não nos é entregue de bandeja a intenção da narrativa e temos de confiar na palavra do próprio autor que nos assegura que tudo fará sentido eventualmente. Talvez. 
Trata-se de um projecto ambicioso que me faz querer ler o próximo número (aliás, optei por fazer subscrição à mini-série completa, afinal são só mais 3 números) e ter a esperança de que não me irá desiludir. Talvez.

12 de Agosto de 2015

"...and it never stops coming!"
TRASHED
Derf Backderf

Abrams Comicarts, 2015
256 págs., P&B, digital

Como escrito no prefácio deste seu novo livro, Derf Backderf antes de entrar na faculdade já tinha uma história de vida que o permitiria ser escritor - foi punk rocker, cresceu com Jeff Dahmer e trabalhou como homem do lixo.
Não é de surpreender, então, que cada um dos livros que publicou sejam exactamente sobre essas situações e temas.
Conheço Derf precisamente por causa do seu último livro, "My Friend Dahmer", onde explora a sua relação quando adolescente com alguém que viria a tornar-se um serial killer de renome.
Este "Trashed", por sua vez, é inspirado nos seus anos como lixeiro e aborda o quotidiano de uma profissão raramente ponderada pelo homem comum que não se preocupa com as possibilidades, dificuldades e nuances da rotina do homem do lixo.
A natureza episódica do livro coexiste com uma análise da indústria lixeira americana (e não só) fundamentada numa pesquisa bibliográfica sólida e objectiva.
O estilo de desenho característico do underground americano: "feio", garatujado, cheio de pormenor obsessivo, a preto e branco, reforça ainda mais o aspecto documental da obra que oscila entre os pólos da relação humana e do processo humano de produção de lixo.
Apesar da tentativa de distanciamento objectivo, com recurso a estatísticas e esquemas, o ponto forte desta banda desenhada reside na sua capacidade de retratar a interacção humana recorrendo a personagens que reflectem perfeitamente os tempos modernos. É precisamente o elenco variado que torna esta obra multidimensional e não somente um debitar de números e preocupações; esse elemento humano convida-nos a continuar a ler e reflectir, mais do que qualquer outra informação apocalíptica descrita nas páginas do livro.

10 de Agosto de 2015 (II)

"What?! You think I should accept my role?!"
SATOSHI KON'S OPUS
Satoshi Kon
Dark Horse Manga, 2014
384 págs., P&B, capa mole

Satoshi Kon é um conhecido realizador de animação japonesa. Os seus filmes "Perfect Blue" (1997), "Millenium Actress" (2001) e "Tokyo Godfathers" (2003) ganharam-lhe a reputação de um criativo com um pendor para misturar o mundo da imaginação com o mundo real de uma forma adulta e deslumbrante.
Aqueles que conhecem a sua obra cinematográfica por vezes ignoram o seu trabalho prévio na nona arte. "Opus" é uma das suas mangas incompletas de meados dos anos noventa que foi lançado recentemente no mercado americano pela Dark Horse Manga (que é uma forma de dizer a linha de publicação de manga da Dark Horse Comics).
Este manga não escapa à tendência geral da obra de Kon e conta a história de um mangaka (autor de bd japonesa) que se vê a braços com o concluir da sua série actual. O autor opta por um fim pouco ortodoxo, matando uma das personagens principais. Infelizmente para ele, essa personagem não está para aturar esta situação e decide sabotar a história planeada. 
Assim começa uma aventura que não obedece à estrutura típica de uma narrativa, onde confluem diferentes níveis de realidade, inclusive o nosso "mundo real". O subtexto é pouco subtil mas relevante, trata-se da questão mais antiga - a relação entre o homem e um suposto deus omnipotente - examinada através da interacção entre personagens e criador. Os momentos metafísicos abundam e o traço de Kon, semelhante ao das suas animações, adulto e polido, estabelece perfeitamente essa colisão entre mundos.
Tragicamente, Kon faleceu em 2010, aos 46 anos, após o diagnóstico de um cancro pancreático. Para trás deixa uma obra ponderada que influenciou inúmeras pessoas, sendo exemplos mediáticos realizadores como Darren Aronofsky ou Christopher Nolan. A sua mão invisível tocou muitos e mudou a nossa forma de ver o mundo. 


Quero aproveitar esta ocasião para inaugurar um novo espaço no blogue - o "Fora d'Órbita" - que, por vezes, irei anexar às postagens do costume com coisas que não sejam bd que tenham alguma ligação directa (neste caso, um filme do mesmo autor) ou indirecta (por exemplo, temáticas comuns) com o artigo principal. Começamos, então, por...

"To share the same dream."
PAPRIKA (2006)
De Satoshi Kon
Com as vozes de Megumi Hayashibara & Tōru Emori
90 min

No mundo de Paprika o DC Mini permite que consigamos entrar nos sonhos de outros. O aparelho tinha o intuito de facilitar a psicoterapia, aproximando o terapeuta do paciente, mas alguém roubou o dispositivo e usou-o para fins nefários.
Mais uma vez, Satoshi Kon mistura duas realidades de forma assombrosa, um pleno espectáculo visual que nos permite ultrapassar sem rancor os momentos de confusão impostos ao espectador mais incauto.

21 de Junho de 2015

"In other words, Class E is hopeless!"
ASSASSINATION CLASSROOM, VOL. 1
Yūsei Matsui
Viz Media, 2014
192 págs., P&B, capa mole

Já tinha ouvido falar de Assassination Classroom (ou seria de The Drifting Classroom?) no podcast Comic Books Are Burning in Hell, mesmo assim, sem ficar com uma ideia clara do que tratava o manga de Yūsei Matsui. Suspeitava que fosse algo semelhante ao Deadly Class de Rick Remender e companhia, mas, como sempre, a lógica japonesa é impossível de adivinhar e difícil de descrever.
A destruição de setenta por cento da Lua numa explosão que a deformou permanentemente - um crescente inevitável nos céus - foi provocada por uma criatura que ameaça fazer o mesmo com o nosso planeta.
Esse ser amarelo de cabeça esférica, com um sorriso quase perpétuo, e corpo tentaculado, apresentou-se às autoridades argumentando a inevitabilidade da destruição da Terra dentro de um ano. A sua capacidade de se mover a velocidades supersónicas torna-o imbatível e as potências mundiais não têm alternativa senão aceder ao seu pedido peculiar - durante aquele ano irá ensinar a turma 3-E de uma das escolas mais prestigiadas do Japão.
Agora a turma dos alunos mais desprezados tem aulas com o monstro que será responsável pela destruição do mundo e de tudo o que eles conhecem. Há outro pormenor, instruídos pelos representantes governamentais, eles têm a missão de matar o seu professor antes do fim do mundo.
Apesar de toda esta loucura, Assassination Classroom foca-se particularmente na relação aluno-professor, mesmo que seja uma pervertida pelo enredo principal, faz algumas críticas ao método de ensino japonês e realça a necessidade e importância do papel de um professor dedicado e vocacionado para lidar com alunos rotulados de "inferiores".
Sobressai, ainda, um sentido de humor inesperado e a versatilidade de Matsui, que consegue passar de uma cena pacífica na sala de aula para um momento de puro terror (refiro-me à tentativa de assassinato protagonizada por Nagisa). Ajuda imenso o traço elegante e a capacidade de retratar a acção de uma forma que só um autor japonês consegue.
Assassination Classroom não é um manga particularmente profundo mas entretém e permite pensar sobre a forma como são estabelecidos os papéis de cada um e como isso nos limita como sociedade.

30 de Dezembro de 2014

Numa altura em que olhar para trás é tão importante como olhar para a frente, algumas listas (que por acaso achei interessantes e decidi colocar aqui) da melhor bd de 2014.
As  melhores Graphic Novels de 2014 de Rachel Cooke, no The Guardian.

Os 10 artistas que Zainab Akhtar apreciou em 2014 no seu blogue, Comics & Cola.

O top 10 das graphic novels de 2014 segundo Michael Cavna no The Washington Post.

A equipa do BDmétrique explica os seus top 5 de bd.

Sean Edgar da Paste Magazine com os seus 25 melhores comics de 2014.

As melhores graphic novels de Laura Miller no Salon.

As escolhas de Tim O'Neil e Oliver Sava no A.V. Club.

Rich Barrett divulga os seus 25 mais interessantes do ano.

John Dermot Woods e amigos sugerem 10 comics para se ler no Ano Novo.

A melhor bd de 2014 segundo a NPR.

Krutika Mallikarjuna do Buzzfeed.com anuncia os 11 comics "vitoriosos" de 2014.

Alberto García na Numerocero.es escreve sobre o ano de 2014 em bd. Em duas partes.

O crítico e historiador de bd Paul Gravett escolhe as suas favoritas do ano.

O pessoal do The Comics Journal não brinca.

Shea Hennum no site This is Infamous com os 20 melhores comics do ano.

A equipa de Blisstopic votou e estes são os resultados.

As escolhas de Nick Gazin da revista Vice.

16 de Novembro de 2014

"No, Nothing like Batman."
GOTHAM ACADEMY #1
Becky Cloonan, Brenden Fletcher & Karl Kerschl
DC Comics, 2014
32 págs., tetracromia, floppy

O universo do homem-morcego já sofreu inúmeras expansões - múltiplos títulos com Batman, outros tantos com personagens relacionadas como Robin ou Nightwing ou qualquer coisa que tenha uma ligação ténue com a personagem que mais vende na DC Comics.
Gotham Academy é, se calhar, o título mais periférico da família morcego, tendo sido descrito como uma espécie de Hogwarts na cidade natal de Bruce Wayne.
A equipa criativa por  detrás deste título era prometedora (Becky Cloonan, Brenden Fletcher e Karl Kerschl já têm provas dadas) mas este primeiro número desaponta.
Primeiro, o enredo é praticamente inexistente, a narrativa foca-se principalmente na personagem de Olive (uma criatura torturada - beneficiar de uma bolsa de estudo numa escola de meninos ricos nunca corre bem - que tem um segredo que a mudou radicalmente e muito provavelmente relacionado com Batman) e nos seus monólogos interiores que sem revelar nada acabam por se tornar vagos e repetitivos.
A intenção óbvia de criar uma atmosfera de mistério com várias questões por responder, algo que muito me agrada numa história, não é bem concretizada principalmente devido à excessiva familiaridade dos conceitos abordados e a lentidão com que são explorados.
E como não podia deixar de ser, Bruce Wayne faz uma visita ao colégio, legitimando  esta introdução e ancorando-a de forma pouco subtil ao universo da DC Comics.
O desenho encontra-se algo simplificado comparado com o que Kerschl nos habituou, tem algumas afinidades com o estilo manga mas permanece "ocidental". Kerschl tenta, ainda, inovar em termos de layout de página mas estas inovações acabam por não alterar de forma substancial a leitura e são, na minha opinião, desnecessárias.
De qualquer forma, o aspecto visual acaba por ser o ponto mais forte do livro.
Concluindo, Gotham Academy tenta ser um título diferente no universo de Batman, optou por uma atmosfera e personagens pouco típicas e é ambicioso na sua expansão desse mundo mas acaba por não impressionar.

12 de Novembro de 2014

"How's the soup taste?"
CHEW, VOL.1: TASTER'S CHOICE
John Layman & Rob Guillory
Image Comics, 2009
128 págs., tetracromia, digital

Nem de propósito, a G. Floy publicou recentemente, em português, o primeiro volume de Chew, a história de um detective "diferente".
Tony Chu é um cibopata, ou seja, é capaz de ter a noção da história completa das coisas que ingere. Este seu poder tem grandes implicações na sua vida pessoal e profissional, muitas vezes tendo de pôr de parte a moralidade vigente e recorrer ao canibalismo para resolver casos mais difíceis.
Chu foi recrutado pela FDA (Food and Drugs Administration) para fazer parte de uma equipa especializada em crimes que envolvam comidas ilegais, como, por exemplo, carne de galinha, cujo consumo nesta realidade foi proibido após a gripe das aves.
Estranhamente, o único alimento imune ao seu dom é a beterraba.
Este tipo de situações bizarras é gerido de uma forma perita por John Layman que desenvolve uma narrativa empolgante desde o início do livro.
Layman tem precisamente como principal ponto forte o seu sentido de humor que se encontra num contínuo entre o absurdo e o nojento.
O elenco peculiar só faz com que a leitura seja ainda mais divertida, especialmente se tivermos em conta a interacção de Chu com o seu superior.
Para além desta vertente mais engraçada, Chew tem um à vontade com a introdução de  sub-enredos intrigantes que conferem à narrativa principal uma possibilidade de longevidade praticamente infinita. Cada novo capítulo introduz mais uma questão que, embora fique por resolver, acaba por não interferir com a narrativa central, muito pelo contrário, expande-a.
O desenho de Rob Guillory tem algo de desengonçado e estranho, esta idiossincrasia pode não ser do agrado de todos mas adapta-se intimamente ao ambiente da história, seja dos momentos mais sinistros  à hilaridade de uma piada estúpida.
Aquele primeiro momento que Chu prova a canja e tem a sua revelação é magistralmente representado por Guillory e talvez seja o melhor momento do livro.
Há algo na leitura de Chew que me faz pensar em Dog Mendonça e Pizzaboy, se calhar tem que ver com a semelhança física entre os protagonistas de cada livro ou mesmo entre os traços de Juan Cavia e Rob Guillory. Pode, também, e mais provavelmente, ser só impressão minha.
No fim de contas, este primeiro volume de Chew não tem como objectivo dar ao leitor a experiência de uma leitura completa mas sim um aguçar de apetite para o que aí vem.
É uma leitura que tem tudo a ver com o que eu considero entretenimento: tem piada e um excelente conceito a fundamentar uma história plena de potencialidades.
Uma óptima escolha da G. Floy no meio de outras óptimas escolhas que constituem esta sua nova fornada de títulos.

P.s.: Esta foi a última das bds incluídas no Humble Bundle da Image Comics. Foi uma longa e épica jornada mas finalmente acabou. 
Na verdade, já tinha lido este primeiro volume em revista mensal mas foi há tanto tempo que já não me lembrava bem do conteúdo, isso fez com que atrasasse cada vez mais esta leitura mas, agora, em retrospectiva, percebo que não fazia sentido essa hesitação, Chew lê-se muito bem uma segunda e, porventura, terceira vez.

7 de Novembro de 2014

"One pig-knuckle sandwich comin' up!"
AMAZING SPIDER-MAN #9 (SPIDER-VERSE PART 1)
Dan Slott & Olivier Coipel
Marvel Comics, 2014
32 págs., tetracromia, floppy

Confesso-me um fã do Homem-Aranha. 
Desde miúdo que acompanho as aventuras de Peter Parker embora, não tão recentemente quanto pareça, a partir de Brand New Day, tenha deixado de seguir regularmente os títulos do aracnídeo.
Dan Slott entra mais ou menos nessa altura e desde então comanda a vida de Parker - entre dar poderes de aranha a todos os habitantes da ilha de Manhattan e matar Peter Parker e substitui-lo por um dos seus arqui-inimigos (o doutor Octopus) - Slott tem dinamizado as histórias do wall crawler com um entusiasmo juvenil, nem sempre bem aceite, de quem ama a personagem.
A sua última aventura, como não pode deixar de ser, é um evento à escala do multiverso.
Morlun, vilão introduzido por J. Michael Straczynski como o inimigo natural do Aranha - o seu predador -, regressa. desta vez acompanhado por uma família literalmente faminta de poder que vive à parte da realidade, num nicho onde pode atingir qualquer mundo e qualquer versão da sua presa.
Assim, um grupo de diferentes Aranhas mobilizou-se para recrutar os diferentes representantes do totem da aranha espalhados pela Grande Teia (mais um nome para o multiverso), o que acaba por incluir todas a versões alternativas do Homem-Aranha que se viram nestes últimos 50 anos de publicação e mais algumas só porque sim.
Esta atitude revisionista de Slott é o sonho molhado de qualquer cromo da bd, especialmente aquele que conhece intimamente a história de Peter Parker, porque, afinal de contas, é ele o "verdadeiro" Homem-Aranha.
Para quem entrou agora no jogo as coisas não correm muito bem, apesar das pequenas introduções e explicações, esta é uma das principais críticas a este tipo de histórias que dificultam muito a entrada de novos leitores menos interessados em "estudar" uma personagem e que só querem algo que faça sentido e entretenha.
O desenho de Olivier Coipel, já veterano nestas lides de grandes eventos, é muito bom, "estiloso" e consistente, parece conseguir representar qualquer situação ou personagem. Espero que continue no título e não, como se tornou também hábito, salte fora daqui a 3 ou 4 números.
Há ainda uma back-up story desenhada pelo competentíssimo Giuseppe Camuncoli que explora mais intimamente as dinâmicas da família de Morlun e, basicamente, as principais razões para os odiarmos. É sempre bom não gostar do mau.
Portanto, começa outro grande evento na vida do Homem-Aranha que agradará aos fãs de longa data e confundirá os recém-chegados.

5 de Novembro de 2014


DOOMBOY
Tony Sandoval
Magnetic Press, 2014
136 págs., tetracromia, digital

Este ano, em Junho, no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja foi lançado o tomo As Serpentes de Água pela Kingpin Books
Ao contrário do habitual das edições portuguesas de autores estrangeiros, Tony Sandoval, o autor, esteve presente. Para minha infelicidade, eu não.
Já conhecia Sandoval das minhas idas ao DeviantArt mas só de relance e sem grande interesse. A leitura do seu mais recente trabalho - Doomboy, publicado pela desconhecida (pelo menos para mim) Magnetic Press - fez-me perceber o infortúnio de não ter ido ao FIBDB.
Doomboy é sobre D. que, após uma grande perda, consegue expressar o seu sofrimento através da música.
D. é um jovem adepto do Metal que não parece ter outro tipo de ocupação para além de frequentar concertos de garagem com alguns amigos.
Sandoval tem um conhecimento muito próximo deste tipo de situação, segundo a sua biografia, no fim do livro, a bd e o Metal são os seus grandes interesses mas embora a história tenha esse cenário preferencial, Doomboy é menos sobre a cena metaleira e mais sobre lidar com o luto e com as emoções associadas à morte de alguém que nos é querido.
A caracterização da personagem principal é algo redutora se pensarmos que pouco sabemos sobre D. mas o seu conflito emocional é muito bem explorado e é fácil empatizar com a personagem.
Mais que Doomboy, esta bd depende muito do elenco. Os amigos e conhecidos de D. têm, por vezes, uma personalidade mais desenvolvida que o protagonista e se alguns podiam muito bem cair no estereótipo, a verdade é que Sandoval habilmente evita o recurso fácil ao cliché e cria pequenos "momentos verdadeiros".
Ajuda imenso à leitura a atmosfera bem conseguida pela arte etérea de Sandoval e pelas suas representações lovecraftianas que amplificam os sentimentos expressados de forma, muitas vezes literalmente, épica.
Um ponto mais subtil do livro é o seu ritmo. Tony Sandoval é um cartunista exímio, particularmente no regular do andamento da história e na representação do tempo, há vários momentos na leitura que fluem muito naturalmente e, acima de tudo, inteligentemente.
No fim do livro fica ainda indiciada a possibilidade de sequela e, neste leitor em particular, a vontade de a ler.
Aconselhado a que gosta de histórias mais focadas na exploração do mundo interior das personagens  que são acompanhadas por uma arte deslumbrante.

29 de Setembro de 2014

""S." "H." "A"..."
FLEX MENTALLO: MAN OF MUSCLE MISTERY
Grant Morrison & Frank Quitely
Vertigo Comics, 2012
112 págs., tetracromia, capa dura

Grant Morrison é uma figura de renome na banda desenhada norte-americana. O escritor escocês salientou-se pelas suas narrativas complexas, com laivos meta-literários e pelo seu amor incondicional pelos super-heróis.
Flex Mentallo tem um lugar de destaque na sua obra extensa. A mini-série de quatro números, publicada pela Vertigo Comics em 1996 (uma linha editorial criada pela DC Comics para ser espaço de criação de histórias com conteúdos mais adultos que não acedessem ao código de auto-censura estabelecido inicialmente nos anos 50), é uma verdadeira apologia aos super-heróis.
Por um lado, Flex Mentallo é uma reacção visceral à banda desenhada de super-heróis influenciada pela desenvolvida nos anos oitenta encabeçada por Alan Moore (Swamp Thing e Watchmen) e Frank Miller (The Dark Knight Returns) e claramente mal interpretada pelos seus epígonos que confundiram temas adultos com acção ultra-violenta e sexo.
O protagonista Flex Mentallo é um super-herói no qual revemos as aspirações da chamada Golden Age of Comics (nos finais dos anos quarenta até ao princípio dos anos cinquenta, os super-heróis vendiam milhões de números por mês. O facto da banda desenhada para os norte-americanos ser uma "indústria" acusa a atitude mercantilista por detrás do termo golden), seja pela sua aparência física, típica do homem forte do circo, como pela sua atitude inocente e idealista - "um escuteiro", como é descrito pelo seu inimigo Hoaxer, uma espécie de mistura entre Lex Luthor e Edward Nigma. A vertente da história que acompanha a aventura de Flex é plena de referências à mitologia super-heróica e à sua evolução ao longo destes 50 anos e denuncia violentamente o enviesamento para narrativas, literalmente, cada vez mais adolescentes, saturadas de violência física e sexualidade forçada.
Por outro lado, Flex Mentallo é expressão da filosofia pessoal de Morrison, que se vê como um shaman capaz de alterar a realidade através de elementos figurativos - sigilos - e que vê na banda desenhada a representação de outros mundos, reais e arquetípicos, situados em planos de existência diferentes dos nossos e como núcleo de influências. Esta visão do mundo informa as narrativas de Morrison e fundamenta os temas recorrentes da sua obra, nomeadamente: a existência de mundos paralelos, a bd como "droga" que altera a percepção e a figura do super-herói como ideal (como se vê no seu projecto mais recente, Multiversity), aliás, como mais autêntico que o nosso mundo "incompleto".
O outro protagonista do livro, um músico relativamente bem sucedido, incapaz de se relacionar sem ser superficialmente e que, após uma tentativa de suicídio, se vê a relembrar o que é realmente importante - a bd que fez em criança (Flex é uma das suas criações de infância que se tornou real para salvá-lo) e o que ela pode trazer a este mundo decepcionante. Julgo que esta personagem se trata do avatar de Morrison, aquele que descobre a verdade sobre o universo e que acaba por se sacrificar para trazer a boa nova a todos. Há algo de auto-comiserativo na personagem que acaba por se tornar narcísico.
Com Morrison nesta meta-aventura, um companheiro de longa data com o qual ainda iria colaborar muitas outras vezes (The InvisiblesWe3, All-Star Superman, etc.), Frank Quitely, cujo o estilo gráfico impressiona sempre, um "feio bonito" que, quando quer, mimetiza os estilos de outros grandes nomes, o que se evidencia, por exemplo, na capas de cada um dos números da mini-série (e aquele Kirby descarado...). Quitely é genial. Ponto final.
Para finalizar, algumas coisas que me chamaram a atenção no livro principalmente por terem piada: o nome da personagem titular é um piscar de olhos ao leitor; ironicamente, os indivíduos que reconhecem a existência de super-heróis na história sofrem todos de algum tipo de defeito - loucura, toxicodependência ou alcoolismo - que os coloca à parte da sociedade "ignorante"; o vómito no peito do segundo protagonista funcionando como símbolo ao jeito dos super-heróis; por último, a palavra mágica que o protagonista diz (qual Captain Marvel) antes da sua transformação.
Recomendo este livro a quem o quiser ler, especialmente se tiver algum conhecimento da mitologia dos super-heróis, tantas são as pequenas "jóias" encontradas no livro. 5 estrelas.

19 de Setembro de 2014

"...we will rise again."
LOW #1
Rick Remender & Greg Tocchini
Image Comics, 2014
31 págs., tetracromia, floppy

Há pouco mais de 10 anos a ficção científica parecia não ter lugar nos comics americanos, os poucos exemplos com qualidade pareciam relegados às estantes dos entendidos do género.
O recente "segundo advento" da Image Comics trouxe consigo alguns títulos de ficção científica interessantes e Rick Remender é um dos homens do leme desta nova vaga (já em 2005 andava a escrever Fear Agent que acabou por vingar tanto por persistência como por qualidade). Desta feita, Remender apresenta-nos Low, uma história de ficção científica passada num ambiente subaquático. 
A espécie humana está novamente a beira da extinção, o sol está a expandir e o refúgio da radiação crescente é encontrado na profundidade dos oceanos.
Os Caine são os líderes de uma comunidade nómada que procura uma "terra" prometida improvável. As contrariedades são muitas mas o fardo é suportável com o auxílio do Helm Suit, um exosqueleto codificado geneticamente de uso exclusivo da família Caine. Mas quando o fato é alvo de um ataque por piratas que podem fazer os Caine?
Relativamente à escrita e enredo, o diálogo é engraçado, há uma série de perguntas e referências que existem para aguçar apetites e dar uma ideia de um universo maior por detrás de uma narrativa que acaba por ser algo familiar.
Remender é sempre bem acompanhado. Greg Tocchini traz muito estilo à história, com um excelente design da cidade e dos veículos. Uma crítica que se pode fazer ao desenho tem a ver com a caracterização das personagens que são algo semelhantes em termos de expressão facial. Este pormenor que por vezes falta ao traço de Tocchini é parcialmente compensado pelas suas cores que, infelizmente, por vezes, chegam a ser um pouco opressivas, podendo ter optado por uma palete menos garrida.
Para um primeiro número há muito para digerir e acaba de forma a que o leitor queira ler o próximo, portanto, cumprindo de forma competente o seu principal objectivo. A acompanhar.