June 8, 2014

"This was about the time that mom started to pull away."
CELEBRATED SUMMER
Charles Forsman
Fantagraphics, 2014
68 pages, B&W, softcover


Last year, Fantagraphics Books published The End of the Fucking World by Charles Forsman.
I was going to write something about the book but all I ended up doing was just tease about it.
TEOTFW was a book about a different kind of adolescence, one that is maybe in a diametrical opposite of the traditional view of teens: it was about not feeling and how it made us closer and farther away from our humanity.
Forsman was a student at the Center for Cartoon Studies and soon after graduation decided to adventure into independent publishing. He founded Oily Comics based on a specific policy: simple, affordable comics.
Celebrated Summer is, technically, his first long form book - TEOTFW was actually first serialized as floppies and only later collected into book form by Fantagraphics - and continues to approach the thematics of adolescence.
Wolf, our overweight protagonist, with his friend Mike decide to take a short trip (in more than one way) after graduating from high school. Self-discovery ensues.
He is, pardon the pun, a lone Wolf, a solitary creature that makes introversion his way of life. His inner monologues are that much more revealing about him and offer us glimpses about the parts of his life that aren't explored in the book - particularly his relationship with his grandmother.
Forsman drawing style is clearly influenced by Charles Schulz (Peanuts), a familiar and safe line that uncomplicates. An appropriate style that, unlike popular belief, is always adult and that fits well with the story's atmosphere and themes.
So, Celebrated Summer is not a story per se, doesn't follow a plot nor comes to a clear conclusion. It's a story about a person, their loneliness and what may or may not be inferred between the lines. A bit like real life.

8 de Junho de 2014


June 1, 2014

A taste for alliteration.
S.F.
Ryan Cecil Smith
Koyama Press, 2013
59 pages, B&W, softcover

If only all saturday morning cartoons were this good. 
S.F. is Ryan Cecil Smith's version of waking up early, turning the tv on, sitting on the floor and telling your mom "just a minute!" when she orders you to have breakfast.
Fun and light-hearted, S.F. is a science fiction comic that plays with the genre's clichés and presents them as an all ages comic book.
This is the third volume of the series but, honestly, it's all pretty (literally) self-explanatory. An intergalactic organization of do gooders is in constant battle with evil, evil people. Kudos to Smith for those introductory first two pages - most comics nowadays forget that sometimes the reader isn't as informed as they "should" be.
Smith's cartooning is strangely familiar and clearly influenced by manga (particularly where shading is concerned) or its animation equivalent (Captain Harlock, anyone?). It's quite easy on the eyes.
The book's strength is in its pacing and character development. Each character has a bit of the spotlight and the book is better for it.
If you want a hardcore science fiction comic, this is not the book you're looking for (try Prophet by Brandon Graham et al.). If you have kids or just want to relive a bit of your lost childhood then go buy this!

1 de Junho de 2014

"You sure?"
SOUTHERN BASTARDS #1
Jason Aaron & Jason Latour
Image Comics, Abril 2014
28 págs., tetracromia, floppy

Earl Tubbs deixou Craw County há quarenta anos mas agora, com a mudança do seu tio para um lar, regressa à sua cidade-natal para resolver assuntos pendentes.
Southern Bastards é uma história sobre nostalgia no sentido mais literal da palavra. Passada no sul dos Estados Unidos, região cada vez mais aproveitada como cenário, seja pela sua história violenta como pela mística que lhe é inerente. Southern Bastards é sobre um regresso a casa.
Craw County está sob o domínio de uma figura misteriosa: Boss (será Bruce Springsteen?) e os seus capangas intimidam a população com impunidade. Earl é o filho do antigo xerife, uma lenda local, e, relutantemente, defende uma figura algo patética do seu passado.
Jason Aaron começa assim o seu novo conto americano, mais uma história de conflitos e costumes que, esperamos, terá a mesma qualidade de Scalped.
O que mais surpreende é a arte do outro Jason (Latour) que consegue ser dura mas elegante. De realçar o ritmo conseguido na penúltima página, onde três momentos diferentes se intercalam de forma eficaz e ressonante. Isto sem falar da palete de cores escolhida que complementa perfeitamente o ambiente da história.
Para ler se gostam de séries da HBO.

May 4, 2014

"Ciao, professore."
COMICS CLASS
Matthew Forsythe
Koyama Press, 2011
44 pages., B&W, paperback

A comic book about Matthew Forsythe's experience as a seventh grade teacher, Comics Class adresses his difficulties when his romantic perspective of the profession is confronted with the harsh reality of teaching eleven year olds.
The book is a collection of humor strips of relatively simple structure that are based on the author's ineptitude as a teacher and his difficult relationship with his students. 
Somewhat self deprecating and caricatural - much like Forsythe's drawing style, with a pinch of asian influences - the book is a light and easy read whose charm and fun derives very much from its main character - a deluded idealist who does not seem to learn the most important lesson - nobody cares.

4 de Maio de 2014

"Ciao, professore."
COMICS CLASS
Matthew Forsythe
Koyama Press, 2011
44 págs., P&B, capa mole

Comics Class é sobre a experiência de Mattthew Forsythe como professor da disciplina de banda desenhada de uma turma de alunos do sétimo ano. O livro aborda as dificuldades sentidas pelo autor quando vê confrontada a sua perspectiva romântica da profissão com a realidade crua do ensino.
O livro é uma colecção de tiras humorísticas de estrutura relativamente simples que se baseiam na inépcia do autor como professor e na relação difícil com os alunos. Tem o seu quê de auto-comiserativo e caricatural que se aplica também ao estilo visual de Forsythe que denuncia alguma influência asiática no seu desenho.
Leve e fácil de ler, este livrito tem charme e graça muito devidos à personagem principal, um idealista iludido que não parece aprender a mais importante das lições - ninguém se rala.

1 de Abril de 2014

Oli Riches
CAPTAIN AMERICA: THE WINTER SOLDIER
De Joe e Anthony Russo
Com Chris Evans, Scarlet Johansson, Samuel L. Jackson, Robert Redford e outros
136 min

A Marvel Studios parece que faz carreira de lançar blockbusters. Mesmo o precalço ocasional não tem vindo a prejudicar a qualidade global dos filmes lançados. Ajuda imenso estar a ser adoptado um universo comum. Sim, estes filmes são unidades independentes mas referem-se entre si e contribuem para uma narrativa maior.
Este último lançamento, Captain America: The Winter Soldier, está em continuidade com o primeiro filme, com a série televisiva satélite, e, particularmente, com o filme Avengers.
O primeiro filme, Captain American: The First Avenger, é a história de origem da personagem. Steve Rogers, mais pelo seu carácter que por atributos físicos, é escolhido para ser um super-soldado e a principal arma contra o regime nazi. A história passa-se durante o período da Segunda Guerra Mundial e termina com o sacrifício do Capitão que, convenientemente, acaba por sobreviver num estado de animação suspensa até os tempos modernos. E assim começa o verdadeiro sacrifício de Rogers, um homem deslocado no tempo, deixou para trás tudo o que lhe era familiar e terá de aprender a viver neste admirável mundo novo. Neste segundo filme, encontramos o Capitão ainda num processo de adaptação desconfortável e a trabalhar para a S.H.I.E.L.D. como o bom soldado que é.
É um filme de acção com elementos de espionagem e cumpre bem aquilo a que se propunha: entreter e propulsionar o espectador a ver os outros filmes do conjunto. "Gotta catch'em all!"
Agora, em vez de fazer um resumo do enredo, vou focar-me em alguns aspectos que considero mais interessantes. 
Primeiro o protagonista, este Capitão é quase um ser assexuado, evita activamente relacionar-se com o género oposto, apesar da sua masculinidade nunca ser posta em questão. É o exemplo do americano perfeito, valores e ideais, como acaba por evidenciar no seu discurso, próximo do fim do filme.
Quando confrontado com as opções mais "autoritárias" da S.H.I.E.L.D., levanta a sua voz em oposição contra as políticas optadas e a figura patriarcal de Nick Fury que as crê justificadas pelos acontecimentos no passado. Soa-vos familiar? O policiamento global por parte dos E.U.A. pelo bem de todos? Não, a mim também não.
Em vez de o filme explorar uma posição mais rebelde de Rogers e tornar-se numa alegoria para a luta contra a autoridade, opta-se por uma solução muito mais "americana".
Afinal a S.H.I.E.L.D. é um organismo inocente parasitado por indivíduos corruptos - a Hydra - que a manipulam para atingir os seus intentos maléficos. Pode-se até dizer que, embora se passe na actualidade, este filme é mais do que uma sequela directa aos acontecimentos do primeiro filme. Podia muito bem passar-se nos anos 50, altura em que a América vivia o terror do comunismo e o medo da infiltração dos principais alicerces da sociedade americana - a Quinta Coluna.
Este remanescente de um mal antigo (que nem o soldado perfeito conseguiu eliminar) subsistiu e espalhou-se pelas estruturas de poder e, mesmo assim, é uma entidade frágil, pois sente-se ameaçada por uns milhões de indivíduos que têm de ser eliminados a todo o custo. E quem arca com esse custo? O contribuinte americano. Não há dúvida que foi através do aumento de impostos que se conseguiram construir aqueles helicarriers. Fico à espera de ver os nossos a pairarem pelos céus portugueses.
Outra questão interessante, também tipicamente americana, é a da representatividade étnica. De importância tal que o grupo do Capitão durante a Segunda Guerra Mundial tem, obrigatoriamente, que ter um afro descendente e um asiático no seu plantel apesar do "texto fonte". Sem falar do Falcão e da Viúva Negra. E que tal atirar todo esse idealismo racial pela janela fora?
Um branco poderoso, o secretário Pierce, tem uma empregada latina lá em casa, que é, estupidamente, responsabilizada pela sua própria morte (se ao menos fosse mais bem educada...). Perpetuação de estereotipia racial ou exemplo real?
Que tal voltar ao capitão? Há melhor exemplo da pureza ariana? Hitler deve ter ficado orgulhoso por ter sido derrotado por este espécimen.
Não tão claro no filme são as tendências esquerdistas do Capitão, sempre a ultrapassar Sam Wilson pela esquerda e a anunciá-lo em alto e bom som. Obviamente não pode explorar estas opiniões durante o filme, estava demasiado ocupado a enfrentar os comunistas, perdão, nazis. Mesmo assim, após a derrota inevitável dos maus, volta a reiterar a sua posição. Para além do seu melhor amigo estar do outro lado das trincheiras e chamar-se de Winter Soldier e empunhar no seu braço metálico uma linda estrela soviética. Subtil.
A prepotência da visão política americana é colocada ainda mais em destaque quando, nas audiências pós-catástrofe, a Viúva Negra é confrontada com o papel controverso da S.H.I.E.L.D. e defende-se afirmando que é algo necessário à nação e que atenua qualquer penalização imposta.
Quem diria que este blockbuster seria tão político? Quem diria que é uma alegoria para a América dos anos 50? Quem diria que acção, espionagem, explosões, gajos e gajas boas = política.
Ah, é verdade, o Capitão é macho. Afinal sempre vai convidar a Agente 13 para sair. Em relação a isso quem é que o pode censurar?

April 25, 2014

"...the cage..."
THE CAGE
Martin Vaughn-James
Coach House Books, 2013
192 pages, B&W, digital

There are things beyond us, challenging our understanding and enduring as unfathomable mysteries.
In 1975, Martin Vaughn-James published The Cage, his "visual novel " in a succession of books that explore the natural notion of "if two pages (of comics), why not ten ?".
The Cage is characterized by the absence of characters. All human existence is suggested by the spaces and objects of sensorial disposition (as Seth shrewdly states in the introduction). Each page a panel, a window into corridors and landscapes that drain into each other. Spatially and temporaly self-referenciation, like a ball of string, whose beginning and end are hidden inside it. 
The clinically drawn pictures are accompanied by an equally enigmatic text, commenting on what is observed and interpretating what is not. A self contained universe away from our reality.
Maybe Vaughn-James' cage is our reality , our mind or a description of time itself. Vaughn-James is a self-diagnosed orphan. The book has an independent life beyond its author and a hipotetical original inspiration.
My interpretation? The cage is the panel through which we see and explore the world inside the book and the discomfort and perplexity we take from reading it, brings it inside us.

25 de Abril de 2014

"...the cage..."
THE CAGE
Martin Vaughn-James
Coach House Books, 2013
192 págs., P&B, digital

Há coisas que nos ultrapassam, que desafiam a nossa compreensão e que resistem como mistérios insondáveis.
Em 1975, Martin Vaughn-James publicou The Cage, o seu "romance visual" que surge na sucessão de uma série de livros que exploram a noção natural de "se duas páginas, porque não dez?".
The Cage caracteriza-se pela sua ausência de personagens, toda a existência humana sugerida pelos espaços e objectos dos sentidos (como muito bem enunciado por Seth na introdução), cada página, uma vinheta, uma janela única para corredores e paisagens que drenam umas nas outras, uma auto-referenciação espacial e temporal, como um novelo cujo início e fim estão escondidos no seu interior.  As imagens clinicamente desenhadas são acompanhadas por um texto igualmente enigmático, comentário do que é observado, interpretação do que não é. Um universo distante do concreto e real.
Se calhar a jaula ou gaiola que Vaughn-James descreve é a nossa realidade, o nosso cérebro ou o tempo. O autor declara-se como órfão da obra, tal a vida que esta ganhou para além de si e, talvez, da sua inspiração inicial.
A minha interpretação? A jaula é a página, a vinheta que usamos para explorar o mundo interior do livro. E o desconforto e perplexidade que obtemos da leitura trá-la para dentro de nós.

24 de Abril de 2014

Desta vez um cheirinho franco-belga e italiano. Angoulême é o festival de bd europeu com maior projecção e os seus prémios ainda têm algum prestígio, apesar das polémicas que são comuns a este meio. As duas bds seguintes já me tinham despertado curiosidade antes (momento hipster) de ganharem prémios em França. Por coincidência fazem ambas parte da Collections Mirages das Éditions Delcourt.

MAUVAIS GENRE
Chloé Cruchaudet
Delcourt/Mirages, 2013
160 págs., tetracromia, capa dura

Para escapar as trincheiras da Primeira Guerra Mundial e reunir-se com o seu amor, Paul decide travestir-se e tornar-se Suzanne. Sei pouco mais sobre este livro, o desenho e cores de Chloé foram as primeiras coisas que reparei e que me fizeram querer lê-lo.

COME PRIMA
Alfred
Delcourt/Mirages, 2013
223 págs., tetracromia, capa dura

Após a morte do seu pai, dois irmão partem numa viagem que os permite conhecer melhor o seu pai e explorar a sua relação fraterna atribulada. Este livro é-me particularmente interessante, pelo seu tema e pelo traço simples e expressivo de Alfred.

23 de Abril de 2014 (2)

"Well, I'm not amused, Charlie!"
JOHN STANLEY'S SUMMER FUN!
John Stanley et al.
Drawn and Quarterly, 2011
32 págs., tetracromia, floppy

Comecei a ler bd com as revistas do costume: Disney, Maurício de Sousa e outros, todas publicadas pela brasileira Editora Abril. A principal força motriz por detrás dessa iniciação foi a minha mãe que queria que eu desenvolvesse um gosto pela leitura.
Ainda tenho uma grande ternura por essas histórias e há sempre uma parte de mim tentada a folhear a versão actual dessas revistas quando vou a um desses supermercados próximos de casa.
Dentro dos outros que referi encontravam-se as histórias do Bolinha e da Luluzinha. Não eram os meus favoritos e também passei rapidamente ao género dos super-heróis porque eram "mais adultos e interessantes".
Portanto, John Stanley era um nome desconhecido até muito recentemente, quando dei comigo a investir mais na bd independente norte-americana. Muitos autores têm as suas séries e autores de eleição e promovem um tipo de publicação correntemente chamada de "nostalgia press" - reedições de bd clássica com um novo formato para os tempos modernos. 
Gregory Gallant (Seth) é um desses autores. Para além de Nipper de Doug Wright e de Peanuts de Charles Schultz, Seth coordena a colecção John Stanley. É ele que trata do design das capas (é dele a imagem que acompanha este post) e dos interiores e, porventura, até fornece alguns originais da sua colecção para reprodução. Stanley é conhecido pelas suas histórias inteligentes, bizarras e divertidas, notoriamente, da Little Lulu, Nancy e universo de personagens relacionadas.
Numa tangente, o Free Comic Book Day (FCBD) celebra-se anualmente e é um dia em que, como o nome indica, as lojas da especialidade disponibilizam gratuitamente aos clientes, bds publicadas para esse efeito. Ficou estipulado realizar-se no primeiro sábado de maio (já este dia 3!), pelo menos na América do Norte.
Outra tangente, a Loja Sétima Dimensão festeja os seus 10 anos, é a única loja especializada em bd da Região Autónoma da Madeira e o seu dono, Roberto Macedo Alves, tem sido o principal dinamizador da bd na região. Desde que a loja abriu em 2004, a publicação de artigos sobre bd na imprensa regional tornou-se algo regular, foram promovidos vários eventos (24 Hour Comics Day, exposição de bd com David Loyd - esse mesmo do V for Vendetta! - na Casa das Mudas e o actual NaveBD que se realiza entre 23 e 26 de abril e contava com a presença de Phil Jimenez que entretanto não pode comparecer) e a participação na Feira do Livro é já dado adquirido.
Conjugando esta informação toda, a loja Sétima Dimensão faz agora os seus 10 anos e numa visita à loja (que costumo fazer quando cá venho) fui presenteado com o John Stanley's Summer Fun. Foi uma leitura leve e divertida, como costumam ser este tipo de histórias, e não posso excluir a influência da nostalgia. De qualquer forma, julgo tratar-se da bd na sua forma mais pura ou mais próxima do seu intuito original - diversão descartável.
Pouco mais há a dizer, excepto desejar os parabéns à Sétima Dimensão e esperar que continue a fazer o seu bom trabalho por longos anos.

23 de Abril de 2014


22 de Abril de 2014

"...ya no hay miedo."
EL HÉROE - LIBRO DOS
David Rubín
Astiberri Ediciones, 2012
288 págs., tetracromia, capa dura

O segundo volume da reinterpretação do mito de Hércules por David Rubín é em tudo semelhante ao primeiro.
David Rubín, influenciado por outro tipo de mito - o do super-herói - reconta a história dos doze trabalhos de Hércules. Segue fielmente a mitologia greco-latina, aparte algumas opções estilísticas, o que é de louvar pois nunca tenta eufemizar a sexualidade nem os crimes do protagonista.
Na verdade, esta segunda parte é mais densa nesse aspecto, tenta dar profundidade emocional à personagem e fazê-la mais do que um herói mítico, um herói trágico. Algo, aliás, comum às histórias originais que entretanto de tanto recontadas e "lavadas" pelo colectivo popular, eram inócuas. Ninguém precisa de heróis perfeitos.
A arte de Rubín mantém o seu padrão de qualidade. Mais dinâmica que nas suas histórias anteriores, evidencia o desejo do autor de fazer a tal história a que se propunha no prólogo do primeiro livro.
De qualquer forma, temos mais do mesmo, "muita parra e pouca uva", quase 300 páginas de combates apelativos intercalados com um esforço consciente e denunciado do autor de desenvolver uma personagem e um panteão de figuras que já têm um lugar bem estabelecido no nosso subconsciente.
Basicamente, recomendo ler este livro se se gostar de mitologia, super-heróis e arte interessante com cenas de acção dinâmicas. Dito desta forma não soa nada mal.
Entretanto, Rubín colaborou com o conterrâneo Santiago García no livro "Beowulf", mais um herói de índole mítica, e está a desenhar "The Rise of Aurora West", prequela de "Battling Boy" de Paul Pope que co-escreve este livro com J.T. Petty.

21 de Novembro de 2011

"Heracles: Héroe o producto?"
EL HÉROE - LIBRO UNO
David Rubín
Astiberri Ediciones, 2010
280 págs., tetracromia, capa dura


Os heróis gregos têm destas coisas, são muito dados a longos poemas épicos com determinadas convenções: embates repetitivos com criaturas fantásticas e vitória inevitável. É engraçado que Herácles ou Hércules seja só lembrado pelos seus feitos e não pelos eventos que o marcam como herói trágico. 
David Rubín explica-nos logo na primeira página ao que vem, uma criança (substituto do autor ou ele mesmo) lê um dos antigos comics de Jack Kirby e sonha com um dia fazer algo assim. 
Esta é a carta de amor de Rubín a Kirby (e aos super-heróis) com o dinamismo que o velho mestre punha nas suas páginas. Mais, é o mais activo e entusiasta Rubín que já li. As suas obras anteriores parecem estáticas em comparação, a introspecção era muita e parecia ser um explorar de um mundo interior revisto como espectáculo visual para o leitor. Talvez um pouco adolescente... 
Nesta obra Rubín quebra com esse passado, com muita energia e muito movimento e um regresso às convenções - sejam estas as clássicas, sejam da nova mitologia (falo de super-heróis). Até a indumentária das personagens é claramente homenagem ao universo dos super-heróis. 
Portanto, David Rubín gosta de super-heróis e de mitologia e eu posso dizer que o livro não é mau mas sabe a pouco (talvez por isso já estivesse planeada a segunda parte da história) e a grande falha é no enredo simples porque o desenho está de acordo com os padrões a que nos habituou.
A ver se leio o segundo...

Texto original publicado aqui.

21 de Abril de 2014


1 de Março de 2010

"Go to hell."
RICHARD STARK'S PARKER: THE HUNTER
Darwyn Cooke
IDW Publishing, 2009
144 págs., dicromia, capa dura


De regresso a casa para umas férias curtas, encontrei um caderno A4, pautado, de capa preta - o típico caderno que me habituei a usar no liceu.
Em 2010 tive um ano sabático forçado. Foi um ano difícil e comprei umas poucas bds para me ocupar ("Best of 2009: Parker: The Hunter; Asterios Polyp; Pinocchio; Secret Science Society"). Nessa altura a ideia do blogue ganhou mais força (desde 2007 que tenho o blogue registado mas só após 5 anos de hesitações e medos é que o comecei) e tinha decidido escrever algo sobre uma bd que tinha acabado de ler. Acabei por não fazer nada com o texto. Dois anos depois, impulsivamente, como sempre, decidi publicar a primeira postagem que encontram aqui.
Ao folhear o caderno encontrei o seguinte, sem tirar nem pôr.

"Tópicos:
- protagonista difícil de se simpatizar;
- trama simples;
- ficção criminal;
- a arte de Darwyn Cooke - traço reminiscente de Batman: The Animated Series, simplicidade, faz boa transposição para o tempo da narrativa; a escolha de duas cores; storytelling: facilidade evidenciada nas 15 primeiras páginas do livro, que contém apenas duas falas, fluidez de acção."

"A chamada "graphic novel" ganha um lugar de relevo nas vendas da bd, há cada vez mais essa moda. IDW aposta no mercado livreiro em vez do nicho típico da banda desenhada, a loja de especialidade, com um formato dirigido a um público mais "amplo". Esperança que surte efeito."

"Donald Westlake (1933-2008) cria Parker, ladrão profissional, em 1962, vindo a personagem a protagonizar 24 dos 28 livros escritos sob o pseudónimo de Richard Stark. Desde então inúmeras adaptações foram feitas à sua obra (sendo a mais recente Payback,  filme de 1999, protagonizada por Mel Gibson, antes de turpores alcoólicos e comentários anti-semitas). É curioso que até esta adaptação em bd, Westlake não permitiu o uso do nome de Parker em nenhuma delas.
Segundo se diz, a editora IDW estaria interessada em Darwyn Cooke para publicar algo seu e quando questionado sobre o que gostaria de fazer, referiu o nome de Westlake.
A parceria concretizou-se após Westlake ver alguns dos desenhos de Cooke, contudo, o primeiro não veria a versão final da colaboração, já que faleceu em 2008. No entanto, este não será o último volume das aventuras de Parker na banda desenhada, pois já este ano planeia-se publicar  a sequela intitulada Parker: The Outfit, como se pode ver no anúncio na última página do livro."

Riscado de cima a baixo:
"Resumindo, uma história típica de crime que é valorizada pela arte de Darwyn Cooke."

É isso.

19 de Abril de 2014 (2)

2014 parece ser um ano que promete em termos de comics. Abaixo, escrevo sobre alguns projectos que foram ou vão ser publicados este ano e que me chamaram a atenção. Espero fazer deste espaço de antevisão algo regular e de cariz mais universal, embora, devido a limitações pessoais, tenha algum pendor norte-americano.

CELEBRATED SUMMER
Charles Forsman
Fantagraphics Books, 16 janeiro 2014
64 págs., P&B, capa mole

Charles Forsman regressa ao tema da adolescência problemática com o seu traço inspirado em Charles Schultz e enredo centrado no mundo emocional das personagens. Se TEOTFW, publicado o ano passado, for indicativo da qualidade deste novo trabalho, vale a pena ler.

B+F
Gregory Benton
AdHouse Books, 21 janeiro 2014
64 págs., tetracromia, capa dura

Esta co-publicação pela AdHouse Books e as Editions çà et là, de Gregory Benton, parece ser uma história "fluxo de consciência" sobre uma mulher e o seu cão gigantesco num mundo surreal. Não conhecia Benton e o que me atrai neste livro é a arte cartunesca e expressiva, a liberdade das regras narrativas e, claro, as dimensões do livro!

THIS ONE SUMMER
Mariko Tamaki & Jillian Tamaki
First Second Books, 1 maio 2014
320 págs., monocromia, capa mole

Duas amigas pré-adolescentes descobrem o significado de crescer quando passam um Verão atípico juntas. Uma narrativa mais ambiciosa que Skim, na verdade o que me faz querer ler este livro tem mais a ver com o desenho elegante de Jillian do que com a escrita de Mariko...

HOW TO BE HAPPY
Eleanor Davis
Fantagraphics Books, 22 maio 2014
144 págs., tetracromia, capa dura

Eleanor Davis não tem o reconhecimento que merece. A sua arte é deslumbrante e o seu sentido humor, só equiparado à sua capacidade de expressar a condição humana, fazem dela leitura obrigatória. Comprem este livro!

LOSE #6
Michael DeForge
Koyama Press, 9 setembro 2014
52 págs., P&B, floppy

Já escrevi sobre Lose neste blogue e o que se pode esperar da antologia de Michael DeForge é mais do mesmo: visceralidade e desconforto. O "mesmo" de DeForge é qualidade que surpreende pela quantidade de trabalho que desenvolve anualmente.