Comic Con Portugal 2014


Vista da área comercial da Comic Con Portugal 2014

Aconteceu nos passados dias 4, 5 e 6 de Dezembro a primeira Comic Con Portugal, na Exponor. Ao longo do ano, a organização prometeu um evento de uma magnitude sem precedentes para o nosso país, o que, penso, foi conseguido com sucesso, apesar de ter os percalços que seriam esperados de uma primeira tentativa.

Tenho visto diversas queixas de pessoas que achavam que o evento foi pobre em relação à banda desenhada. Aliás, logo após o painel da Pia Guerra e do Ian Boothby na sexta-feira, fui abordada por uma jornalista que me fez algumas perguntas sobre a minha opinião do evento. Quando manifestei a minha opinião positiva, ela disse-me que achava que a programação de banda desenhada deixava muito a desejar, e perguntou-me se concordava. A verdade é que não, não concordo. Admito que para outras pessoas, ter a Pia Guerra, o Brian K. Vaughan e o Marcos Martín juntos no mesmo evento, a assinar autógrafos e num painel, seja algo de pouca importância. Talvez não tenham lido Y: The Last Man e Private Eye, ou talvez o Saga (uma das bandas desenhadas mais premiadas dos últimos anos) lhes tenha passado ao lado. Talvez não conheçam o Ian Boothby, que já escreveu mais comics dos Simpsons que qualquer outro escritor. Talvez dêem pouca importância ao trabalho extenso do Carlos Pacheco com super-heróis como os Avengers, Superman, Green Lantern ou X-Men, e ao do Javier Rodriguez com o Daredevil ou Spider-Man. Se calhar nunca ouviram falar do Miguelanxo Prado ou do Carlos Castellini. Provavelmente já viram muitas vezes o Ricardo Cabral, a Joana Afonso, o Jorge Coelho, o Ricardo Drummond, o Daniel Henriques, e artistas do Lisbon Studio. Para fãs de banda desenhada que não se revêem nestas atitudes, a Comic Con Portugal foi um excelente evento.


Mas vamos por partes.



Painel com Pia Guerra e Ian Boothby

O primeiro dia começou no metro, a caminho da Exponor, quando me deparei com um cosplay quase perfeito de Lulu, da League of Legends. Por ser um dia da semana, os transportes públicos não falharam (mais sobre isto no fundo da página, na parte dos pontos negativos). O recinto não encheu e o ambiente era calmo. O primeiro painel de banda desenhada a que assisti foi o da Pia Guerra e do Ian Boothby, acabados de chegar do Canadá. O moderador rapidamente abriu a participação a membros do público, o que tornou a conversa uma experiência descontraída, pessoal e divertida. Os autores revelaram-se de grande simpatia e sentido de humor, e terminado o painel, praticamente toda a gente que estava no público seguiu-os para o local de autógrafos. Aqui, Ian Boothby assinou bastantes livros de banda desenhada dos Simpsons, mas a fila foi maior para a Pia Guerra, que ainda assim personalizou os autógrafos com pequenos desenhos e tirou fotografias com quem pedia.

Sessão de autógrafos de Pia Guerra e Ian Boothby

O caminho entre o Auditório Comics e o local de autógrafos estava preenchido com uma exposição de prints da banda desenhada online The Private Eye, dos convidados Brian K. Vaughan e Marcos Martín. Infelizmente, esta exposição quase não merecia esse nome. É sem dúvida algo que poderia ser melhorado para ter o impacto que a ExpoSyFy (mais sobre ela mais à frente) teve. Logo a seguir encontrava-se a Artists' Alley, onde dezenas de artistas expuseram e venderam os seus trabalhos, para além de ser possível vê-los a trabalhar e pedir trabalhos personalizados. A qualidade e diversidade das obras, bem como os preços acessíveis e a possibilidade de conversar com o artista, fez com que, para mim, esta área se tornasse o ponto alto do evento, e uma prova de que o que temos em Portugal ao nível de arte de banda desenhada pode perfeitamente competir internacionalmente em termos de qualidade.

Artists' Alley

O dia continuou com os painéis e autógrafos do Filipe Melo e Juan Cavia, Lisbon Studio, Banzai, Ricardo Cabral, Carlos Pacheco e Javier Rodríguez, e Luis Magalhães. Entretanto, deixei a banda desenhada para me juntar à fila de autógrafos da Morena Baccarin (Firefly, V, Homeland, e agora Gotham). De notar o facto de que os autógrafos não foram pagos, como acontece noutras Comic Cons, e a actriz ofereceu uma fotografia com dedicatória a cada pessoa na fila. O actor Paul Blackthorne (Arrow, The Dresden Files) foi (pelo que assisti) o único que aceitou tirar selfies durante os autógrafos, para além de distribuir abraços durante os três dias da Con.

Gostaria ainda de referir o Portfolio Review que, aparentemente, teve a participação de Randy Stradley (Dark Horse Comics), Gregory Lockard (Vertigo Comics) e Mário Freitas (Kingpin Books). Uma vez que não participei nem conheço quem tenha participado, não posso comentar acerca do seu sucesso, mas é uma iniciativa de louvar.

Parte inicial da fila para entrar na Comic Con (sábado)

O segundo dia foi bastante mais confuso do que o primeiro devido à multidão que encheu o recinto, criando o caos de que muita gente se queixou nas redes sociais. Pessoalmente, era algo de que estava à espera, tendo em conta eventos análogos; ainda assim, é possível melhorar o sistema de admissão de bilhetes nos próximo anos, algo que tenho a certeza que a organização irá ter em conta. Para quem, como eu, tinha uma pulseira do dia anterior, a entrada foi rápida e fácil, mas quem tinha o bilhete do dia esperou no mínimo uma hora na fila para entrar. A grande atracção do dia foi o painel (e autógrafos) da Natalie Dormer (Tudors, Game of Thrones, The Hunger Games: Mockingjay), que foi tão concorrido que nem sequer tentei assistir. Amigos que foram disseram que o painel foi excelente (aparentemente com alguns comentários sexistas a que Natalie respondeu com inteligência e dignidade), mas os autógrafos foram uma confusão. Quando passei por lá, era bastante óbvio que, ao contrário do que tinha acontecido com outros actores, a fila não estava a ser respeitada, e não havia qualquer controlo para impedir fura-filas. Infelizmente, falta de civismo é algo que está para além do controlo da organização, mas certamente algo poderá ser feito para melhorar a experiência, talvez com um sistema de senhas ligado ao código de barras na pulseira de cada visitante, para ter a certeza de que não há gente a aproveitar-se.

Sessão de autógrafos com Brian K. Vaughan

Através de conversas com conhecidos que participaram na Comic Con como vendedores, a multidão traduziu-se num volume de vendas mais elevado do que o esperado, com algumas lojas a esgotarem o stock ao fim do segundo dia (recomendo a leitura dos posts do blog aCalopsia dedicados ao tema). Vi imensa gente a comprar banda desenhada dos autores presentes para depois se dirigirem à zona de autógrafos, que esteve sempre apresentável, embora bastante mais pequena do que a fila para os actores. A excepção foi a fila de autógrafos para o Brian K. Vaughan, que no sábado assinou ao mesmo tempo que Carlos Pacheco, Javier Rodríguez e Marcos Martín (aqui se vê uma das desvantagens das bandas desenhadas digitais: a impossibilidade de conseguir um Private Eye assinado pelos autores), e cuja fila rivalizou a dos autógrafos de actores. No entanto, a extensa fila não se traduziu em longas esperas pois Brian K. Vaughan era o único dos convidados de BD que apenas escreve. As restantes filas, apesar de mais curtas, implicaram frequentemente esperas mais longas quando os artistas decidiam acompanhar a assinatura com desenhos.

Marcha imperial da 501st Legion

O Auditório Comics encheu no sábado com o concurso Heróis do Cosplay. Apesar de não ter assistido devido ao esgotamento de lugares, a qualidade e variedade de cosplays que vi durante o dia leva-me a crer que esta parte do evento foi um sucesso. As fotografias que tirei não fazem justiça aos cosplay, pelo que vos convido a visitarem a galeria de fotos do blog Lytherus, bastante completa e com fotografias de qualidade. De mencionar também a 501st Legion, grupo internacional de cosplay de Star Wars, que estiveram presentes com cosplays praticamente perfeitos de stormtroopers, bounty hunters, Darth Vader, Slave Princess Leia, Emperor Palpatine e Jawas. Estavam sempre disponíveis para fotografias e pequenos jogos. De vez em quando, ouvia-se a marcha imperial ecoar pelo recinto, e apareciam os membros da 501st Legion a marchar pelo evento em formação, para terminar num photo-op no hall perto da saída.

Painel Da Vinci's Demons

O terceiro dia, de afluência mais modesta que no dia anterior, foi marcado por diversos painéis de actores. Da série Da Vinci’s Demons, Tom Riley, Blake Ritson e Elliot Cowan foram acolhidos com entusiasmo (por vezes a roçar a histeria), e revelaram-se disponíveis, simpáticos e divertidos. A conversa que se gerou à volta das questões do público focou-se em diversos pormenores das experiências dos actores nas filmagens, e a audiência teve a oportunidade de assistir a um trailer exclusivo da terceira época da série, que irá estrear em breve.

Também presente esteve Clive Standen, da série Vikings, do Canal História. Não estive presente neste painel, mas a Telma, do blog Ler e Reflectir, esteve lá e tem isto a dizer: “Clive Standen falou um pouco sobre como foi crescer ao lado da floresta de Sherwood (imortalizada por Robin Hood) e o quanto isso contribuiu para enveredar por uma carreira de actor. O actor não poupou elogios nosso país, no qual tinha andado a passear com a família nos últimos dias e confessou ser um verdadeiro geek e que por isso mesmo adorava a experiência de ir a Comic-Cons. Respondeu às perguntas dos fãs sobre a série e como é ser actor, mencionando alguns trabalhos passados em que participou até ao casting para este papel, que lhe trouxe mais fama, após recusar entrar em "Spartacus”."

E, finalmente, tivemos o painel de Paul Blackthorne das séries The Dresden Files e Arrow, que, como já foi mencionado, durante os três dias se mostrou incansável a dar autógrafos e tirar fotografias com os fãs.

Painel com Brian K. Vaughan, Pia Guerra e Marcos Martín

O painel que os fãs de banda desenhada não podiam perder era o de Brian K. Vaughan, Pia Guerra e Marcos Martín. Como esperado, falou-se imenso de Y: The Last Man, The Private Eye e Saga. Em resposta a perguntas do público, os autores discutiram a popular transformação da banda desenhada em cinema e televisão, com Brian K. Vaughan a lamentar que essa adaptação seja vista como a melhor coisa que pode acontecer a uma série de banda desenhada, que na sua opinião deveria valer por si mesma, em vez de aspirar a outro meio. Falou-se também de novos meios de produção e distribuição de comics e o impacto que têm não só no consumidor, mas também nos artistas e escritores. Todos os autores deram pistas sobre novos trabalhos que estão a desenvolver e sobre os quais ainda não podem falar abertamente.

Painel com Joe Reitman

O último painel a que assisti foi o de Joe Reitman, actor, realizador e a cara da Comic Con Portugal durante o ano de preparação para o evento. Num painel que se revelou descontraído e divertido, Joe Reitman falou dos desafios com que a organização se deparou na tentativa de fazer um evento inaugural, mencionando que diversos actores e artistas com que falou se mostraram relutantes por ele não lhes poder dar qualquer garantia da qualidade e sucesso do evento, e que isso iria mudar no ano seguinte pois poderia apresentar provas de que a Comic Con Portugal é um evento de sucesso. Seguiram-se diversas sugestões de nomes de convidados da parte do público (umas mais realistas do que outras), com Joe Reitman convidando as pessoas a enviarem-lhe mensagens pela internet a dizerem quem gostariam de ver para o ano.

Alguns dos objectos em exposição na ExpoSyFy

A ExpoSyFy foi outro ponto alto do evento, e apesar de, juntamente com a Walking Dead Blood Store, estar situada num local estranho (era logo após a saída, pelo que implicava sairmos do evento para a visitarmos), no sábado e domingo teve sempre fila para entrar. A selecção de adereços era extensa e para todos os gostos. Apesar de grande parte das peças serem réplicas (o que, já dizia Walter Benjamin, retira sempre alguma da mística ao objecto), podíamos ver peças originais suficientes para satisfazer qualquer geek do cinema, como por exemplo a máscara de The Mask ou a espada Uruk-Hai de Lord of the Rings.

Walker liderado por uma Gryffindor

Por fim, gostaria de mencionar os Walkers. A série Walking Dead marcou presença com o actor Seth Gilliam, mas as grandes estrelas do evento foram sem dúvida os actores (presumo) transformados em zombies que deambulavam pelo evento, a atacar e assustar as pessoas. Os visitantes podiam “alugar” um Walker (gratuitamente) e levá-lo por uma corda pelo recinto (como a Michonne faz na banda desenhada e série de televisão). Confesso que fiquei surpreendida com a dedicação dos actores ao seu papel, pois em nenhuma altura vi nenhum deles a sair da personagem. Três dias inteiros cobertos de maquilhagem, com expressão e olhar de moribundos, a arrastar as pernas e a serem guiados por pessoas com uma corda. Contribuíram imenso para o ambiente da convenção, e por isso estão de parabéns.

Houve pontos negativos? Claro. O comentário mais negativo que tenho é em relação a algo que não foi da total responsabilidade da organização da Comic Con Portugal: os transportes públicos para chegar à Exponor. Não há outra maneira de dizer isto: a STCP esteve muito mal. Quem vive no Porto sabe que ultimamente a rede de autocarros tem tido imensas falhas, desde atrasos de mais de uma hora a autocarros que simplesmente não aparecem. Não estava à espera de que essas coisas acontecessem durante um evento desta dimensão, tendo a organização avisado a STCP da quantidade de bilhetes que tinham vendido (esta informação foi-me dada por um dos expositores que tinham conversado com a organização acerca deste problema). Para quem não tinha carro, chegar à Exponor durante o fim-de-semana foi uma tormenta. 

Para além desse ponto, não fiquei muito impressionada com os voluntários. Estavam por todo o lado e, sinceramente, não se percebia muito bem a fazer o quê. Já fui voluntária em diversos eventos e sei como pode ser difícil responder a todas as dúvidas dos visitantes (que frequentemente tratam os voluntários como se fossem responsáveis pelo que se está a passar, o que é triste quando se está a trabalhar de graça para outrém), mas se consigo entender o facto de não se saber uma resposta, não consigo compreender como é possível não se saber a quem perguntar para descobrir. A excepção foram os voluntários dos autógrafos de autores de banda desenhada, que estavam todos bem informados, organizaram bem as filas, e quando não sabiam a resposta a alguma pergunta dirigiam-se imediatamente a quem sabia e voltavam com uma resposta. Para além do que se mostraram sempre atenciosos e disponíveis quando alguém pedia para tirar uma fotografia com um autor. Por isso, fica aqui o meu agradecimento.

Pessoalmente, as partes negativas foram pormenores comparadas com a experiência positiva que tive do evento, de tal modo que, se pusessem os bilhetes à venda amanhã, eu comprava antes mesmo de saber quem vai. Os convidados são um dos factores de sucesso de qualquer convenção, e nesse aspecto a Comic Con Portugal não falhou, mas aquilo que me surpreendeu e de que mais gostei foi o ambiente de camaradagem geek, o ajuntamento de milhares de pessoas em torno de interesses e paixões que são (ainda) muitas vezes gozadas e olhadas de lado pela sociedade em geral. Vi essa diferença nos olhos de quem observava os cosplayers: no metro, os olhares eram de curiosidade, estupefação, gozo e escárnio; no recinto da Comic Con Portugal, de admiração e alegria. Talvez seja esse ambiente a parte mais importante da Comic Con.

17 de Novembro de 2014




Lamentamos informar que, devido a compromissos profissionais, a programação deste blogue será interrompida. Planeamos um regresso à normalidade no início de 2015.

16 de Novembro de 2014





GOTHAM ACADEMY #1
Becky Cloonan, Brenden Fletcher & Karl Kerschl
DC Comics, 2014
32 págs., tetracromia, floppy

O universo do homem-morcego já sofreu inúmeras expansões - múltiplos títulos com Batman, outros tantos com personagens relacionadas como Robin ou Nightwing ou qualquer coisa que tenha uma ligação ténue com a personagem que mais vende na DC Comics.
Gotham Academy é, se calhar, o título mais periférico da família morcego, tendo sido descrito como uma espécie de Hogwarts na cidade natal de Bruce Wayne.
A equipa criativa por  detrás deste título era prometedora (Becky Cloonan, Brenden Fletcher e Karl Kerschl já têm provas dadas) mas este primeiro número desaponta.
Primeiro, o enredo é praticamente inexistente, a narrativa foca-se principalmente na personagem de Olive (uma criatura torturada - beneficiar de uma bolsa de estudo numa escola de meninos ricos nunca corre bem - que tem um segredo que a mudou radicalmente e muito provavelmente relacionado com Batman) e nos seus monólogos interiores que sem revelar nada acabam por se tornar vagos e repetitivos.
A intenção óbvia de criar uma atmosfera de mistério com várias questões por responder, algo que muito me agrada numa história, não é bem concretizada principalmente devido à excessiva familiaridade dos conceitos abordados e a lentidão com que são explorados.
E como não podia deixar de ser, Bruce Wayne faz uma visita ao colégio, legitimando  esta introdução e ancorando-a de forma pouco subtil no universo da DC Comics.
O desenho encontra-se algo simplificado comparado com o que Kerschl nos habituou, tem algumas afinidades com o estilo manga mas permanece "ocidental". Kerschl tenta, ainda, inovar em termos de layout de página mas estas inovações acabam por não alterar de forma substancial a leitura e são, na minha opinião, desnecessárias.
De qualquer forma, o aspecto visual acaba por ser o ponto mais forte do livro.
Concluindo, Gotham Academy tenta ser um título diferente no universo de Batman, optou por uma atmosfera e personagens pouco típicas e é ambicioso na sua expansão desse mundo mas acaba por não impressionar.

12 de Novembro de 2014



CHEW, VOL.1: TASTER'S CHOICE
John Layman & Rob Guillory
Image Comics, 2009
128 págs., tetracromia, digital

Nem de propósito, a G. Floy publicou recentemente, em português, o primeiro volume de Chew, a história de um detective "diferente".
Tony Chu é um cibopata, ou seja, é capaz de ter a noção da história completa das coisas que ingere. Este seu poder tem grandes implicações na sua vida pessoal e profissional, muitas vezes tendo de pôr de parte a moralidade vigente e recorrer ao canibalismo para resolver casos mais difíceis.
Chu foi recrutado pela FDA (Food and Drugs Administration) para fazer parte de uma equipa especializada em crimes que envolvam comidas ilegais, como, por exemplo, carne de galinha, cujo consumo nesta realidade foi proibido após a gripe das aves.
Estranhamente, o único alimento imune ao seu dom é a beterraba.
Este tipo de situações bizarras é gerido de uma forma perita por John Layman que desenvolve uma narrativa empolgante desde o início do livro.
Layman tem precisamente como principal ponto forte o seu sentido de humor que se encontra num contínuo entre o absurdo e o nojento.
O elenco peculiar só faz com que a leitura seja ainda mais divertida, especialmente se tivermos em conta a interacção de Chu com o seu superior.
Para além desta vertente mais engraçada, Chew tem um à vontade com a introdução de  sub-enredos intrigantes que conferem à narrativa principal uma possibilidade de longevidade praticamente infinita. Cada novo capítulo introduz mais uma questão que, embora fique por resolver, acaba por não interferir com a narrativa central, muito pelo contrário, expande-a.
O desenho de Rob Guillory tem algo de desengonçado e estranho, esta idiossincrasia pode não ser do agrado de todos mas adapta-se intimamente ao ambiente da história, seja dos momentos mais sinistros  à hilaridade de uma piada estúpida.
Aquele primeiro momento que Chu prova a canja e tem a sua revelação é magistralmente representado por Guillory e talvez seja o melhor momento do livro.
Há algo na leitura de Chew que me faz pensar em Dog Mendonça e Pizzaboy, se calhar tem que ver com a semelhança física entre os protagonistas de cada livro ou mesmo entre os traços de Juan Cavia e Rob Guillory. Pode, também, e mais provavelmente, ser só impressão minha.
No fim de contas, este primeiro volume de Chew não tem como objectivo dar ao leitor a experiência de uma leitura completa mas sim um aguçar de apetite para o que aí vem.
É uma leitura que tem tudo a ver com o que eu considero entretenimento: tem piada e um excelente conceito a fundamentar uma história plena de potencialidades.
Uma óptima escolha da G. Floy no meio de outras óptimas escolhas que constituem esta sua nova fornada de títulos.

P.s.: Esta foi a última das bds incluídas no Humble Bundle da Image Comics. Foi uma longa e épica jornada mas finalmente acabou. 
Na verdade, já tinha lido este primeiro volume em revista mensal mas foi há tanto tempo que já não me lembrava bem do conteúdo, isso fez com que atrasasse cada vez mais esta leitura mas, agora, em retrospectiva, percebo que não fazia sentido essa hesitação, Chew lê-se muito bem uma segunda e, porventura, terceira vez.

November 9, 2014




DOOMBOY
Tony Sandoval
Magnetic Press, 2014
136 pages, cmyk, digital

This year, in June, at the Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja (one of our dearest comics festivals), "As Serpentes de Água" (The Water Snakes) was released by our own Kingpin Books.
Unlike the usual portuguese editions of foreign authors, Tony Sandoval, the author, was present. To my misfortune, I was not.
I knew of Sandoval from my usual visits to DeviantArt, usually just for a quick look and without a great deal of interest. Reading his latest work - "Doomboy", published by the unknown (at least to me) Magnetic Press - made me realize the misfortune of not attending the FIBDB.
Doomboy is a story about how someone, after a great loss, can overcome grief through artistic means, in this case, music.
D. is a young man, known for his love of heavy metal, that seems to have no other occupation besides going to garageband concerts with his friends. Sandoval has a very intimate knowledge of this medium, since, according to his biography at the end of the book, comics and Metal are his major interests. 
But although a prefered scenario, Doomboy is less about the heavy metal scene and more about dealing with the pain and other emotions associated with the death of someone dear to us.
The characterization of the main character is something of a misnomer when you consider how little we know little about D., but his emotional conflict is well explored  and it is easy to empathize with him.
More than D., this comic is dependent on its cast. Doomboy's friends and acquaintances are, at times, better developed characters than the protagonist and even when some of them could easily fall into stereotypical descriptions, the fact is that Sandoval skillfully avoids the easy recourse to cliché and is able to create some "real moments" in the narrative.
Another great  strength of the book is its atmosphere, the ethereal art and lovecraftian representations amplify the sentiments expressed to the point of them being, quite literally, epic.
A more subtle point is the pacing. Tony Sandoval is an accomplished cartoonist, particularly in how he manipulates space and time on the page. There are several moments that flow in an extremely natural way and, above all, in an intelligent way.
You finish the book with a sense of satisfaction and there's even a hint about a possible sequel that makes you eager for a continuation. A job well done.
If you like stories focused on the exploration of the inner world of the characters that are accompanied by stunning artwork, this is your book.

9 de Novembro de 2014