29 de Setembro de 2014

""S." "H." "A"..."
FLEX MENTALLO: MAN OF MUSCLE MISTERY
Grant Morrison & Frank Quitely
Vertigo Comics, 2012
112 págs., tetracromia, capa dura

Grant Morrison é uma figura de renome na banda desenhada norte-americana. O escritor escocês salientou-se pelas suas narrativas complexas, com laivos meta-literários e pelo seu amor incondicional pelos super-heróis.
Flex Mentallo tem um lugar de destaque na sua obra extensa. A mini-série de quatro números, publicada pela Vertigo Comics em 1996 (uma linha editorial criada pela DC Comics para ser espaço de criação de histórias com conteúdos mais adultos que não acedessem ao código de auto-censura estabelecido inicialmente nos anos 50), é uma verdadeira apologia aos super-heróis.
Por um lado, Flex Mentallo é uma reacção visceral à banda desenhada de super-heróis influenciada pela desenvolvida nos anos oitenta encabeçada por Alan Moore (Swamp Thing e Watchmen) e Frank Miller (The Dark Knight Returns) e claramente mal interpretada pelos seus epígonos que confundiram temas adultos com acção ultra-violenta e sexo.
O protagonista Flex Mentallo é um super-herói no qual revemos as aspirações da chamada Golden Age of Comics (nos finais dos anos quarenta até ao princípio dos anos cinquenta, os super-heróis vendiam milhões de números por mês. O facto da banda desenhada para os norte-americanos ser uma "indústria" acusa a atitude mercantilista por detrás do termo golden), seja pela sua aparência física, típica do homem forte do circo, como pela sua atitude inocente e idealista - "um escuteiro", como é descrito pelo seu inimigo Hoaxer, uma espécie de mistura entre Lex Luthor e Edward Nigma. A vertente da história que acompanha a aventura de Flex é plena de referências à mitologia super-heróica e à sua evolução ao longo destes 50 anos e denuncia violentamente o enviesamento para narrativas, literalmente, cada vez mais adolescentes, saturadas de violência física e sexualidade forçada.
Por outro lado, Flex Mentallo é expressão da filosofia pessoal de Morrison, que se vê como um shaman capaz de alterar a realidade através de elementos figurativos - sigilos - e que vê na banda desenhada a representação de outros mundos, reais e arquetípicos, situados em planos de existência diferentes dos nossos e como núcleo de influências. Esta visão do mundo informa as narrativas de Morrison e fundamenta os temas recorrentes da sua obra, nomeadamente: a existência de mundos paralelos, a bd como "droga" que altera a percepção e a figura do super-herói como ideal (como se vê no seu projecto mais recente, Multiversity), aliás, como mais autêntico que o nosso mundo "incompleto".
O outro protagonista do livro, um músico relativamente bem sucedido, incapaz de se relacionar sem ser superficialmente e que, após uma tentativa de suicídio, se vê a relembrar o que é realmente importante - a bd que fez em criança (Flex é uma das suas criações de infância que se tornou real para salvá-lo) e o que ela pode trazer a este mundo decepcionante. Julgo que esta personagem se trata do avatar de Morrison, aquele que descobre a verdade sobre o universo e que acaba por se sacrificar para trazer a boa nova a todos. Há algo de auto-comiserativo na personagem que acaba por se tornar narcísico.
Com Morrison nesta meta-aventura, um companheiro de longa data com o qual ainda iria colaborar muitas outras vezes (The InvisiblesWe3, All-Star Superman, etc.), Frank Quitely, cujo o estilo gráfico impressiona sempre, um "feio bonito" que, quando quer, mimetiza os estilos de outros grandes nomes, o que se evidencia, por exemplo, na capas de cada um dos números da mini-série (e aquele Kirby descarado...). Quitely é genial. Ponto final.
Para finalizar, algumas coisas que me chamaram a atenção no livro principalmente por terem piada: o nome da personagem titular é um piscar de olhos ao leitor; ironicamente, os indivíduos que reconhecem a existência de super-heróis na história sofrem todos de algum tipo de defeito - loucura, toxicodependência ou alcoolismo - que os coloca à parte da sociedade "ignorante"; o vómito no peito do segundo protagonista funcionando como símbolo ao jeito dos super-heróis; por último, a palavra mágica que o protagonista diz (qual Captain Marvel) antes da sua transformação.
Recomendo este livro a quem o quiser ler, especialmente se tiver algum conhecimento da mitologia dos super-heróis, tantas são as pequenas "jóias" encontradas no livro. 5 estrelas.

September 24, 2014

"You can die right here, or you can be reborn."
UNDERTOW, VOL.1: BOATMAN'S CALL
Steve Orlando & Artyom Trakhanov
Image Comics, 2014
192 pages, cymk, digital

Undertow is yet another good sci-fi offering from Image Comics.
Redum Anshargal is a revolutionary. Rebelling against the rigid atlantean society he seeks a new way of life for his people. That belief takes him and his crew to a harsh environment - the surface world - inhabited by a primitive but resourceful opponent - the human race - that is being manipulated by the one being that might help Redum achieve his goal.
Steve Orlando's atlantean epic is set apart from other adventure comics precisely because of its natural if unintended political overview. The excelent cast revolves around Redum but is independent in terms of agenda and personality. Redum's position is similar to "our" own revolutionary figures, he has a past that is fairly hinted at but still misterious and has a target on his back that makes us question the other characters' intentions since they may have been sent by the atlantean powers that be to eliminate him. There is a lot to explore and the reader's interest is easily piqued.
Artyom Trakhanov's art has an expressive vibe to it, specially his colors, that improves throughout the book. His characters are recognizably unique and he gives the story a traditional sci-fi feel with a well developed design sense.
On par with Trakhanov's art are Yaroslav Astapeev's striking lines (in the "Epilogue" and "The Last Gig" segments) that hopefully will return to the book or, even better, find a well deserved place of their own in another comic.
The main story is backed up by shorter tales that star different characters of the Undertow universe, trying to explore other aspects - historical, sociological and even philosophical - of the atlantean society. Unfortunately, they add little to the reader's enjoyment of the primary narrative.
If you like epic sci-fi adventures with a world of their own and a greater depth to their story, Undertow is for you.

P.s.: This book was read through NetGalley. Once again (Displaced Persons suffered from the same), the image quality made the reading at some points (most notably the "The Last Gig" story) very difficult. This choice is understandable since piracy is a major concern in any digital medium, but how can you ask someone to review something if that person doesn't have the conditions to do it?

24 de Setembro de 2014


19 de Setembro de 2014

"...we will rise again."
LOW #1
Rick Remender & Greg Tocchini
Image Comics, 2014
31 págs., tetracromia, floppy

Há pouco mais de 10 anos a ficção científica parecia não ter lugar nos comics americanos, os poucos exemplos com qualidade pareciam relegados às estantes dos entendidos do género.
O recente "segundo advento" da Image Comics trouxe consigo alguns títulos de ficção científica interessantes e Rick Remender é um dos homens do leme desta nova vaga (já em 2005 andava a escrever Fear Agent que acabou por vingar tanto por persistência como por qualidade). Desta feita, Remender apresenta-nos Low, uma história de ficção científica passada num ambiente subaquático. 
A espécie humana está novamente a beira da extinção, o sol está a expandir e o refúgio da radiação crescente é encontrado na profundidade dos oceanos.
Os Caine são os líderes de uma comunidade nómada que procura uma "terra" prometida improvável. As contrariedades são muitas mas o fardo é suportável com o auxílio do Helm Suit, um exosqueleto codificado geneticamente de uso exclusivo da família Caine. Mas quando o fato é alvo de um ataque por piratas que podem fazer os Caine?
Relativamente à escrita e enredo, o diálogo é engraçado, há uma série de perguntas e referências que existem para aguçar apetites e dar uma ideia de um universo maior por detrás de uma narrativa que acaba por ser algo familiar.
Remender é sempre bem acompanhado. Greg Tocchini traz muito estilo à história, com um excelente design da cidade e dos veículos. Uma crítica que se pode fazer ao desenho tem a ver com a caracterização das personagens que são algo semelhantes em termos de expressão facial. Este pormenor que por vezes falta ao traço de Tocchini é parcialmente compensado pelas suas cores que, infelizmente, por vezes, chegam a ser um pouco opressivas, podendo ter optado por uma palete menos garrida.
Para um primeiro número há muito para digerir e acaba de forma a que o leitor queira ler o próximo, portanto, cumprindo de forma competente o seu principal objectivo. A acompanhar.

5 de Setembro de 2014

"...but I won't be in his debt."
DARK AGES #1
Dan Abnett & I.N.J. Culbard
Dark Horse Comics, 2014
22 págs., tetracromia, floppy

A paz não é só um desejo esperançoso proferido por uma miss ofuscada pelos holofotes, é também angústia e miséria para aqueles que vivem de esmagar crânios com espadas rombas e pesadas.
Um grupo de mercenários medievais percorre uma paisagem bucólica, a vida entre as campanhas é difícil e a fome começa a sobrepor-se à moral, o conflito é forma de subsistência e os céus estão prestes a responder às preces resignadas do grupo. Literalmente.
"Dark Ages" é uma espécie de "Guerra dos Mundos" quinhentos anos antes.
É uma leitura demasiado rápida, o conflito é a principal força motriz da história e a principal função deste primeiro número é levantar questões. Há uma tensão religiosa subjacente ao texto, por um lado temos soldados com uma atitude quase ateísta motivada por uma vivência de privações e de morte, por outro, procuram auxílio num mosteiro que é mais do que parece pois aguardava a chegada dos visitantes - os de outros mundos. Não sei se associar os adeptos religiosos às monstruosidades destrutivas será uma crítica pouco subtil à religião. Vamos ver.
A simplicidade também se encontra no plano visual, os desenhos limpos de Culbard poderão não ser do agrado de todos (não é o meu caso), especialmente daqueles que procuram os pormenores macabros de uma amputação.
Julgo tratar-se, muito provavelmente, de uma história que poderia ser contada em menos páginas e que ficaria muito bem na revista britânica 2000 AD. Não estou a ver um público americano a perder muito tempo com esta bd tendo em conta as muitas e boas alternativas que tem agora à sua disposição.