5 de Dezembro de 2016

"Dear God, dear God, tinkle tinkle hoy!"
Goodnight Punpun Omnibus, Vol. 1
Inio Asano
Viz Media, 2016
448 págs., P&B, capa mole

A memória da nossa infância é irreal. É uma manta de retalhos de nostalgia e fantasia. É impossível reviver o passado e mesmo saber o que sentimos na altura em que as coisas aconteceram.
O mundo de Punpun é assim, tem uma base nostálgica e inocente, uma infância vivida de brincadeiras com os nossos amigos e da descoberta do amor pueril.
Infelizmente para Punpun (felizmente? para o leitor), a sua infância não representa um ideal romântico. A normalidade é constantemente agredida, por vezes literalmente, pelos desejos adultos, pelos desejos dos adultos, por essa bizarria que é a realidade irreal.
Punpun é um menino-pássaro que se apaixona por Aiko, recém-chegada à sua turma, e a quem declara amor eterno até não conseguir cumprir o prometido - como um adulto. A sua vida familiar disfuncional, caracterizada pelas discussões dos pais culmina violentamente numa ruptura com o status quo domiciliário. Mesmo os seus primeiros encontros com uma sexualidade precoce e natural são pervertidos pelo irracional e homicida.
É este constante romper com o que devia ser o caminho natural da infância que fazem de "Goodnight Punpun" uma obra excepcionalmente adulta. Se até há subjacente à narrativa uma melancolia, é precisamente isso, um sentimento de tristeza e pesar agridoce.
Num mundo onde Deus responde mas não dá respostas, uma criança só consegue dar sentido às coisas se houver algum sentido nelas. Mas não há.

12 de Agosto de 2016

"That's not an asteroid."
THE DARK NOTHING
Jordan Crane
275 Booklets, 2015
24 págs., dicromia, floppy


Induzido pelo título, estava à espera de reflexões filosóficas profundas e quando começo a ler, deparo-me com uma obra de ficção científica pura.
Após um ano e meio de animação suspensa, três astronautas de diferentes origens alcançam finalmente com o seu objectivo: são responsáveis pelos preparativos para uma expedição mineira ao espaço entre Júpiter e Marte. Ao atracar num artefacto peculiar - um planetóide que não o é -, depararem-se com dificuldades técnicas que, inevitavelmente, acabam em tragédia.
Uma história simples, bem delineada, "The Dark Nothing" é ficção científica clássica, fundamentada em alguns conceitos simples mas sólidos, que explora o confronto da espécie humana com o desconhecido.
Jordan Crane tem um estilo de desenho muito indie, solto e redondo, e é capaz de representar determinadas situações típicas deste género de uma forma engraçada, nomeadamente, as falhas de comunicação rádio que normalmente prenunciam desfechos menos bons (embora, neste caso, seja um red herring).
Este livro foi comprado o ano passado, juntamente com outros à venda na página de what things do (começa a tornar-se tradição), e parece que será desenvolvido no seu mais recente número de "Uptight", de acordo com a capa do mesmo. Mas Crane já me enganou com este, por isso, porque deveria eu supor o que quer que seja?

11 de Agosto de 2016

"Even at its best, life is just really annoying."
CRICKETS #5
Sammy Harkham
Auto-edição, 2016
32 págs., dicromia, floppy

Prosseguindo com a "trilogia de 5", falaremos agora do quinto número de Crickets, de Sammy Harkham.
Continuação directa dos dois números anteriores (sobre os quais ia escrever mas peguem lá isto, que é bem melhor), Crickets #5 acompanha Seymour, um guionista convertido em cineasta, envolvido num projecto de segunda ou terceira categoria chamado "Blood of the Virgin" (também o título da história).
Ao contrário - não é bem verdade - de "Ganges", "Crickets" têm uma função menos didáctica, explora mais o universo relacional e interior do protagonista - novamente, não é bem verdade que Ganges não o faça - e é mais visceral ao fazê-lo.
Neste volume, desvia-se o foco dos problemas de produção para a vida intima de Seymour e somos assaltados com momentos de contundência emocional que parecem não acabar (Seymor pensa/descreve o momento do nascimento do seu filho, a cena de sexo adormecido; a despedida no aeroporto; etc., etc., etc.). Chega mesmo a ser doloroso.
Acho que Sammy Harkham pode ser um dos autores (e editores) que mais gosto actualmente, é o tipo de cartunista que é subestimado de forma pecaminosa, até ao momento em que lemos algo dele e o queixo cai. Tem um traço simples (quase diria uma linha clara) mas expressivo, mas é essencialmente a força das suas histórias, a capacidade que tem para explorar o que mais de miserável há no ser humano e nas suas relações  que o distingue da maralha.

10 de Agosto de 2016

"There's always time to do what's right!"
GANGES #5
Kevin Huizenga
Auto-edição, 2016
32 págs., dicromia, floppy

O sítio what  things do é um dos meus locais favoritos para encontrar bd. Primeiro, porque reúne num só local autores que eu aprecio (Jordan Crane, Sammy Harkham, Kevin Huizenga, Steven Weissman, etc.); segundo, porque para além de antecipar a publicação oficial das obras destes autores, é também um local onde eles vendem outro tipo de arte, nomeadamente, ilustrações; terceiro, porque o que apresenta consegue conciliar as visões (não tão) antagonistas da bd como entretenimento e da bd como arte.
O quinto número de "Ganges" faz parte do que eu chamo a "trilogia dos 5". Passo a explicar, encomendei três bds no sítio que, por coincidência, ou talvez não, são todos o quinto número da sua respectiva publicação (para além de "Ganges"  de Huizenga, temos "Crickets" de Sammy Harkham e "Uptight" de Jordan Crane). Qualquer uma destas revistas pode inserir-se na categoria de antologia de autor de bd independente.
Então o que é que Kevin Huizenga traz de novo? Talvez nada.
Mas pelo que retirei de "Ganges" (nome de rio e da personagem principal), há mais do que isso. Para já, o desenho de Huizenga por vezes faz lembrar o lendário George Herriman - mais no traço que no virtuosismo - e revela uma mestria do meio da bd que vejo raramente. Há especificamente uma cena onde a representação da sonolência e confusão mental do protagonista é excepcionalmente retratada.
Depois, temos a capacidade de explorar o pensamento humano, extremamente realista, exemplificada pela cena inaugural da revista.
Por último, a temática. Huizenga acredita na bd como meio de transmissão de conhecimento e dos seus interesses. A maioria deste volume explora o pensamento de James Hutton, geólogo e naturalista, e a sua teoria do uniformitarismo que pressupõe uma uniformidade dos processos geológicos ao longo do tempo (observado, por exemplo, nos diferentes estratos da crosta terrestre). Sim, são temas "pesados", mas Huizenga ilustra-os de uma forma tão dinâmica e visualmente interessante que é impossível o leitor não se embrenhar nas ideias expostas.
"Ah, é mais um daqueles autores hipsters (que tu tanto adoras) que não conseguem contar uma história normal!"
Até pode ser verdade, mas de histórias normais e, diria até, banais, está a bd cheia e Huizenga é uma lufada de ar fresco, principalmente pela forma como faz bd. 
Mas não se preocupem, ainda tenho mais dois autores hipsters sobre quem escrever esta semana para confirmação das vossas teorias. E daí, talvez não.

9 de Agosto de 2016

"Praise be to the Cog!"
BRASS SUN #1-6
Ian Edginton & I.N.J. Culbard
2000 AD, 2014
208 págs., tetracromia, floppy

Nem de propósito, ainda o outro dia (ontem, mesmo) estava a falar de 2000 AD, o hebdomário lendário de banda desenhada de ficção científica que está quase a fazer 40 anos de existência. Segundo a tradição, algumas das serializações da revista acabam por ser colectadas e publicadas num formato mais apetecível ao mercado livreiro (à esquerda, a capa da colecção de capa dura).
Ao contrário das expectativas, a 2000 AD decidiu, julgo que só nos Estados Unidos, adoptar o formato do comic americano para alguns dos seus sucessos mais recentes. Brass Sun é um desses sucessos, na altura que saiu na América já havia material suficiente para o triplo dos números publicados.
Resumindo, o sol de um sistema solar artificial está a funcionar mal e, ao contrário dos dogmas do seu mundo e dos outros a visitar, Wren, motivada pelo sacrifício do seu avô, procura uma forma de recolher os vários componentes de uma chave que deverá reiniciar o astro metálico. Para isso, conta com a ajuda de Septimus, membro de uma ordem religiosa responsável pelo transporte entre mundos, e outros párias que acabam por se juntar (temporariamente) à sua senda.
Sediadas num forte ambiente clockpunk, as representações dos mecanismos e funcionamento deste universo são um dos pontos altos desta bd, juntamente com o desabrochar da relação entre Wren e Septimus. Dito isto, há algumas coisas que me incomodaram.
Primeiro, o formato. É mais do que claro pela quantidade de espaço desaproveitado em termos de página publicada que a adaptação ao formato americano foi tudo menos isso - tratou-se mais de uma transladação. Embora a redução dê algum solidificar à linha desenhada, o corpo do texto sofre e não é o melhor para uma leitura fácil.
E por falar em texto, é compreensível que a introdução de uma nova história, personagens e universo peça um discurso mais descritivo, mas a verdade é que acabou por ser algo "palavroso" sem beneficiar a narrativa.
Mais, ao contrário do que escrevi sobre a economia de linha de Culbard em Wild's End, este trabalho parece-me mais apressado e nota-se que, certamente devido às exigências da publicação original, foi necessário obviar o pormenor desnecessário, mas isso acaba por se ressentir na qualidade da bd.
Fora estes pormenores (pormaiores?), estes primeiros 6 números apresentam-nos uma história interessante que prefacia algo maior. Espero que os pequenos defeitos expostos possam ser ultrapassados de forma a que se faça justiça ao universo diverso e original de Brass Sun.

8 de Agosto de 2016 (II)


8 de Agosto de 2016 (I)

"What on Earth are you supposed to be?"
WILD'S END, VOL. 1: FIRST LIGHT
Dan Abnett & I.N.J. Culbard
BOOM! Studios, 2015
160 págs., tetracromia, capa mole

Já vi Wild's End descrito várias vezes como um cruzamento entre "O Vento nos Salgueiros" e  "A Guerra dos Mundos" e, embora as personagens sejam efectivamente animais antropomorfizados e Wild's End relate uma invasão extraterrestre por criaturas insectóides, apresentar esta bd como meramente um híbrido das duas obras supracitadas é simplista e, francamente, preguiçoso.
Para já, Dan Abnett não é exactamente um novato nas lides da ficção científica, tem no seu currículo extenso um longo percurso na revista seminal britânica 2000 AD, já trabalhou para mais de uma dezena de editoras e nem vou referir as porradas (sim, porradas) de romances de ficção científica (prosa mesmo) debaixo do seu braço (teria que ser um braço extremamente longo, a sério). É ele, sem sombra de dúvida, o dínamo por detrás de Wild's End: em poucas páginas consegue criar personagens memoráveis, os diálogos são naturais e interessantes e a acção está bem compassada. Mais, os textos que acompanham a bd (excertos de diários, apontamentos jornalísticos, capítulos de livros de ficção científica de 3ª categoria) aprofundam o contexto e personalidade do elenco.
Por outro lado, temos I.N.J. Culbard, um autor de bd quase tão prolífico quanto Abnett, que num desenho mais simplificado que o seu habitual (nem por isso), premeia-nos com uma bd de leitura de compreensão fácil mas nem por isso telegrafada.
Carnificina à parte, Wild's End é um texto sobre pessoas normais em situações extraordinárias e sobre como ser humano (mesmo quando a Humanidade é representada por diferentes dos nossos colegas animais) em momentos de crise implica trabalhar em conjunto.

7 de Agosto de 2016

"Keep up, new kid."
PAPER GIRLS, VOL.1
Brian K. Vaughan & Cliff Chiang
Image Comics, 2016
144 págs., tetracromia, capa mole


A onda de nostalgia pelos anos 80 está em alta (ver abaixo) e tem permitido revisitar conceitos interessantes.
Já ouviram falar de Brian K. Vaughan (Saga, The Private Eye)? Já? Ok. 
E de Cliff Chiang (Wonder Woman)? Também?
Então têm mais ou menos noção do que esperar de Paper Girls.
Stony Stream é a epítome dos subúrbios americanos, vivendas com  sebes brancas, onde nada se passa e de onde todos os jovens querem escapar.
Portanto, quando Erin Tieng se levanta de madrugada para começar o seu dia (1 de Novembro de 1988) a distribuir jornais e se depara com ninjas disformes, naves espaciais e o fim do mundo, entramos no departamento do parasubúrbio.
E a partir daqui as coisas só começam a ficar mais complexas, sem querer estragar leituras, nomeadamente, viagem no tempo e guerras intergeracionais transtemporais.
Este primeiro volume (colecciona os números 1 a 5 dos fascículos mensais) não acaba por explicar grande coisa, serve para introduzir e para cativar, deixando a resolução das questões levantadas para números posteriores. Faz bem. É precisamente o mistério e o acumular de dúvidas que dá charme à leitura de Paper Girls.
Cliff Chiang ajuda bastante ao encanto do livro, o seu traço angular e pop! (sim, pop!, se depender de mim, passa a ser termo técnico a partir de agora) é perfeito para a história contada e é magnificamente complementado pelas cores de Matt Wilson (mais um prodigioso colorista à laia de Jordie Belaire - certo, também já ouviram falar dela...).
Se querem um retorno ao passado longínquo de há 30 anos, misturado com ficção fantástica, personagens interessantes e arte linda, este é o livro para vós.



"Should I stay or should I go"
STRANGER THINGS (2016)
De Duffer Brothers
Com Wynona Ryder, David Harbour  et al.
8 episódios de 55 min

Melhor Tarantino que o próprio Tarantino, Strangers Things é um regresso nostálgico aos temas e estética dos anos 80 de uma forma tão completa e tão bem sucedida que consegue que o espectador se esqueça de que se trata de uma série de 2016.
O elenco é extraordinário, particularmente o juvenil, que é absolutamente credível.
Uma ode a uma era do fantástico que está marcada a ferros no subconsciente da maioria dos adultos da actualidade.