19 de Agosto de 2015

"Que tu fasses le voyage avec moi."
COME PRIMA
Alfred
Éditions Delcourt (Collections Mirages), 2013
221 págs., tetracromia, capa dura

"Come Prima" é a história de dois irmãos, Fabio e Giovanni, e da sua viagem, após a morte do pai, de regresso à Itália.
A relação fraterna é cheia de atritos, Fabio, o mais velho, deixou o país durante a Segunda Guerra Mundial, abandonando a família à procura de outra vida. A sua decisão fê-lo pária dentro do seio familiar por ordem do seu pai. Giovanni é o irmão mais novo que, apesar da imposição, manteve laços com o irmão até haver cisão completa e perderem totalmente o contacto.
Dez anos após a última vez que se viram, Giovanni encontra a muito custo Fabio, na França, e pede-lhe que viaje consigo, no velho chaço, mais de mil quilómetros para levar as cinzas do pai a casa.
Quis ler "Come Prima" porque a temática toca-me pessoalmente. Embora a história seja um poço de clichés - relação fraterna e paterna difícil, viagens de auto-descoberta, relembrar o passado - e não traga novidades, a narrativa aborda temas bem conhecidos que fazem parte da vida das pessoas e não é pela falta de originalidade que a contundência de um tema seja menor.
O desenho de Alfred é cartonesco, bucólico por obrigação, auxiliado na sua expressividade pela paleta de cores vivas que contrastam com...
O passado, sempre representado a duas cores, por vezes invadido por conversas significativas mas quase sempre sem palavras, da mesma forma como funciona a memória, através de fragmentos mudos.
Esta diferença gritante é destruída pelo abraço final, onde os dois tempos se combinam harmoniosamente.
Alfred é um autor experiente, visualmente brilhante, e este livro é um óptimo exemplo disso, assim como é exemplo de uma história comum - a quebra e reconstruir de ligações - que tem momentos belos (o mais insigne o encontro com Maria e o papel dos lençóis na representação das barreiras internas entre personagens) mas que não produz o impacto no leitor que devia.
Contudo, "Come Prima" obteve o ano passado o prémio Fauve d'or: prix du meilleur album em Angoulême.



"What's wrong with you?"
THE DARJEELING LIMITED (2007)
De Wes Anderson
Com Owen Wilson, Adrien Brody & Jason Schwartzman
91 min

Wes Anderson habituou-nos a histórias peculiares impecavelmente filmadas.
Este filme relata uma viagem pela Índia de três irmãos, um ano após a morte do seu pai,  numa tentativa de reatar laços.
Para além do aspecto visual cuidado (cujo expoente julgo ser o The Grand Budapest Hotel) característico de Anderson, é a interacção entre os três actores principais - um misto de desconforto e ternura - que dá força a este filme.

14 de Agosto de 2015

"When you look under the surface of things, 
what do you see?"
THE SURFACE #1
Ales Kot & Langdon Foss
Image Comics, 2015
24 págs., tetracromia, floppy

Ales Kot é um daqueles escritores que se infiltra numa estrutura, modificando-a e corrompendo-a, fazendo dela vítima de uma perspectiva única.
O exemplo mais flagrante (digo, com mais visibilidade) do trabalho de Kot é "Secret Avengers", um entre outros títulos adjectivados dos Vingadores. Nos quinze números que escreveu, Kot subverteu convenções, introduziu personagens verdadeiramente originais (como, por exemplo, uma bomba com consciência de si e do mundo, apreciadora de gelados) e manipulou de forma surpreendente as expectativas do leitor, conciliando-as com as características mais populares de personagens bem estabelecidas (refiro-me directamente à introdução de Deadpool na narrativa).
Contudo, se queremos conhecer um autor, o mais aconselhado seria começar pelo seu trabalho independente, sem limitações editoriais à mistura. Kot já tem uns poucos de trabalhos "seus" debaixo do braço, o mais notáveis "Change" e "Zero", ambos publicados pela editora Image Comics.
"The Surface" vem na sequência desses trabalhos, especificamente de "Change", sendo quase uma sequela não oficial (segundo o que é descrito neste número), e pertence também ao mesmo ramo genealógico do trabalho de Warren Ellis em "Transmetropolitan" (com direito a "referência obrigatória" no texto) e de "The Invisibles" de Grant Morrison. Afirmo-o muito pela forma como está estruturado este primeiro número, onde se misturam segmentos de entrevista ao autor com comentários à obra presente e às anteriores; reportagens sobre o mundo corrente da história - pequenos fragmentos que se complementam e acrescentam profundidade ao texto principal.
Para além destes momentos meta-literários, a afinidade anunciada aos autores anteriores também se vê no quão difícil a leitura pode ser, em alturas o leitor tem de gerir três "vozes" diferentes, com informação paralela e interligada que faz com que a leitura tenha que efectivamente parar a determinada vinheta.
A história é "simples", o mundo não é mais que uma construção holográfica e um grupo de 3 hackers decidiu ir à procura do ponto de acesso de um nível superior de realidade ao qual chamam "a superfície". Seja esta a superfície das páginas do comic em si (e aqui entramos em território Morrisoniano), seja uma referência mais Burroughsiana, deixo ao critério de cada um.
A arte de Langdon Foss é sólida (uma espécie de Geof Darrow sem o pormenor excessivo) e as cores de Jordie Bellaire suplementam-na perfeitamente, da mesma forma como nos tem habituado em quase todos os projectos em que tem trabalhado (a sério, esta mulher é uma heroína, o seu nome é praticamente sinónimo de qualidade).
A verdade é que "The Surface" é uma leitura desafiante e confusa, não nos é entregue de bandeja a intenção da narrativa e temos de confiar na palavra do próprio autor que nos assegura que tudo fará sentido eventualmente. Talvez. 
Trata-se de um projecto ambicioso que me faz querer ler o próximo número (aliás, optei por fazer subscrição à mini-série completa, afinal são só mais 3 números) e ter a esperança de que não me irá desiludir. Talvez.

12 de Agosto de 2015

"...and it never stops coming!"
TRASHED
Derf Backderf

Abrams Comicarts, 2015
256 págs., P&B, digital

Como escrito no prefácio deste seu novo livro, Derf Backderf antes de entrar na faculdade já tinha uma história de vida que o permitiria ser escritor - foi punk rocker, cresceu com Jeff Dahmer e trabalhou como homem do lixo.
Não é de surpreender, então, que cada um dos livros que publicou sejam exactamente sobre essas situações e temas.
Conheço Derf precisamente por causa do seu último livro, "My Friend Dahmer", onde explora a sua relação quando adolescente com alguém que viria a tornar-se um serial killer de renome.
Este "Trashed", por sua vez, é inspirado nos seus anos como lixeiro e aborda o quotidiano de uma profissão raramente ponderada pelo homem comum que não se preocupa com as possibilidades, dificuldades e nuances da rotina do homem do lixo.
A natureza episódica do livro coexiste com uma análise da indústria lixeira americana (e não só) fundamentada numa pesquisa bibliográfica sólida e objectiva.
O estilo de desenho característico do underground americano: "feio", garatujado, cheio de pormenor obsessivo, a preto e branco, reforça ainda mais o aspecto documental da obra que oscila entre os pólos da relação humana e do processo humano de produção de lixo.
Apesar da tentativa de distanciamento objectivo, com recurso a estatísticas e esquemas, o ponto forte desta banda desenhada reside na sua capacidade de retratar a interacção humana recorrendo a personagens que reflectem perfeitamente os tempos modernos. É precisamente o elenco variado que torna esta obra multidimensional e não somente um debitar de números e preocupações; esse elemento humano convida-nos a continuar a ler e reflectir, mais do que qualquer outra informação apocalíptica descrita nas páginas do livro.

10 de Agosto de 2015 (II)

"What?! You think I should accept my role?!"
SATOSHI KON'S OPUS
Satoshi Kon
Dark Horse Manga, 2014
384 págs., P&B, capa mole

Satoshi Kon é um conhecido realizador de animação japonesa. Os seus filmes "Perfect Blue" (1997), "Millenium Actress" (2001) e "Tokyo Godfathers" (2003) ganharam-lhe a reputação de um criativo com um pendor para misturar o mundo da imaginação com o mundo real de uma forma adulta e deslumbrante.
Aqueles que conhecem a sua obra cinematográfica por vezes ignoram o seu trabalho prévio na nona arte. "Opus" é uma das suas mangas incompletas de meados dos anos noventa que foi lançado recentemente no mercado americano pela Dark Horse Manga (que é uma forma de dizer a linha de publicação de manga da Dark Horse Comics).
Este manga não escapa à tendência geral da obra de Kon e conta a história de um mangaka (autor de bd japonesa) que se vê a braços com o concluir da sua série actual. O autor opta por um fim pouco ortodoxo, matando uma das personagens principais. Infelizmente para ele, essa personagem não está para aturar esta situação e decide sabotar a história planeada. 
Assim começa uma aventura que não obedece à estrutura típica de uma narrativa, onde confluem diferentes níveis de realidade, inclusive o nosso "mundo real". O subtexto é pouco subtil mas relevante, trata-se da questão mais antiga - a relação entre o homem e um suposto deus omnipotente - examinada através da interacção entre personagens e criador. Os momentos metafísicos abundam e o traço de Kon, semelhante ao das suas animações, adulto e polido, estabelece perfeitamente essa colisão entre mundos.
Tragicamente, Kon faleceu em 2010, aos 46 anos, após o diagnóstico de um cancro pancreático. Para trás deixa uma obra ponderada que influenciou inúmeras pessoas, sendo exemplos mediáticos realizadores como Darren Aronofsky ou Christopher Nolan. A sua mão invisível tocou muitos e mudou a nossa forma de ver o mundo. 


Quero aproveitar esta ocasião para inaugurar um novo espaço no blogue - o "Fora d'Órbita" - que, por vezes, irei anexar às postagens do costume com coisas que não sejam bd que tenham alguma ligação directa (neste caso, um filme do mesmo autor) ou indirecta (por exemplo, temáticas comuns) com o artigo principal. Começamos, então, por...

"To share the same dream."
PAPRIKA (2006)
De Satoshi Kon
Com as vozes de Megumi Hayashibara & Tōru Emori
90 min

No mundo de Paprika o DC Mini permite que consigamos entrar nos sonhos de outros. O aparelho tinha o intuito de facilitar a psicoterapia, aproximando o terapeuta do paciente, mas alguém roubou o dispositivo e usou-o para fins nefários.
Mais uma vez, Satoshi Kon mistura duas realidades de forma assombrosa, um pleno espectáculo visual que nos permite ultrapassar sem rancor os momentos de confusão impostos ao espectador mais incauto.

10 de Agosto de 2015 (I)


21 de Junho de 2015

"In other words, Class E is hopeless!"
ASSASSINATION CLASSROOM, VOL. 1
Yūsei Matsui
Viz Media, 2014
192 págs., P&B, capa mole

Já tinha ouvido falar de Assassination Classroom (ou seria de The Drifting Classroom?) no podcast Comic Books Are Burning in Hell, mesmo assim, sem ficar com uma ideia clara do que tratava o manga de Yūsei Matsui. Suspeitava que fosse algo semelhante ao Deadly Class de Rick Remender e companhia, mas, como sempre, a lógica japonesa é impossível de adivinhar e difícil de descrever.
A destruição de setenta por cento da Lua numa explosão que a deformou permanentemente - um crescente inevitável nos céus - foi provocada por uma criatura que ameaça fazer o mesmo com o nosso planeta.
Esse ser amarelo de cabeça esférica, com um sorriso quase perpétuo, e corpo tentaculado, apresentou-se às autoridades argumentando a inevitabilidade da destruição da Terra dentro de um ano. A sua capacidade de se mover a velocidades supersónicas torna-o imbatível e as potências mundiais não têm alternativa senão aceder ao seu pedido peculiar - durante aquele ano irá ensinar a turma 3-E de uma das escolas mais prestigiadas do Japão.
Agora a turma dos alunos mais desprezados tem aulas com o monstro que será responsável pela destruição do mundo e de tudo o que eles conhecem. Há outro pormenor, instruídos pelos representantes governamentais, eles têm a missão de matar o seu professor antes do fim do mundo.
Apesar de toda esta loucura, Assassination Classroom foca-se particularmente na relação aluno-professor, mesmo que seja uma pervertida pelo enredo principal, faz algumas críticas ao método de ensino japonês e realça a necessidade e importância do papel de um professor dedicado e vocacionado para lidar com alunos rotulados de "inferiores".
Sobressai, ainda, um sentido de humor inesperado e a versatilidade de Matsui, que consegue passar de uma cena pacífica na sala de aula para um momento de puro terror (refiro-me à tentativa de assassinato protagonizada por Nagisa). Ajuda imenso o traço elegante e a capacidade de retratar a acção de uma forma que só um autor japonês consegue.
Assassination Classroom não é um manga particularmente profundo mas entretém e permite pensar sobre a forma como são estabelecidos os papéis de cada um e como isso nos limita como sociedade.