22 de Abril de 2014

"...ya no hay miedo."
EL HÉROE - LIBRO DOS
David Rubín
Astiberri Ediciones, 2012
288 págs., tetracromia, capa dura

O segundo volume da reinterpretação do mito de Hércules por David Rubín é em tudo semelhante ao primeiro.
David Rubín, influenciado por outro tipo de mito - o do super-herói - reconta a história dos doze trabalhos de Hércules. Segue fielmente a mitologia greco-latina, aparte algumas opções estilísticas, o que é de louvar pois nunca tenta eufemizar a sexualidade nem os crimes do protagonista.
Na verdade, esta segunda parte é mais densa nesse aspecto, tenta dar profundidade emocional à personagem e fazê-la mais do que um herói mítico, um herói trágico. Algo, aliás, comum às histórias originais que entretanto de tanto recontadas e "lavadas" pelo colectivo popular, eram inócuas. Ninguém precisa de heróis perfeitos.
A arte de Rubín mantém o seu padrão de qualidade. Mais dinâmica que nas suas histórias anteriores, evidencia o desejo do autor de fazer a tal história a que se propunha no prólogo do primeiro livro.
De qualquer forma, temos mais do mesmo, "muita parra e pouca uva", quase 300 páginas de combates apelativos intercalados com um esforço consciente e denunciado do autor de desenvolver uma personagem e um panteão de figuras que já têm um lugar bem estabelecido no nosso subconsciente.
Basicamente, recomendo ler este livro se se gostar de mitologia, super-heróis e arte interessante com cenas de acção dinâmicas. Dito desta forma não soa nada mal.
Entretanto, Rubín colaborou com o conterrâneo Santiago García no livro "Beowulf", mais um herói de índole mítica, e está a desenhar "The Rise of Aurora West", prequela de "Battling Boy" de Paul Pope que co-escreve este livro com J.T. Petty.

21 de Novembro de 2011

"Heracles: Héroe o producto?"
EL HÉROE - LIBRO UNO
David Rubín
Astiberri Ediciones, 2010
280 págs., tetracromia, capa dura

Os heróis gregos têm destas coisas, são muito dados a longos poemas épicos com determinadas convenções: embates repetitivos com criaturas fantásticas e vitória inevitável. É engraçado que Herácles ou Hércules seja só lembrado pelos seus feitos e não pelos eventos que o marcam como herói trágico. 
David Rubín explica-nos logo na primeira página ao que vem, uma criança (substituto do autor ou ele mesmo) lê um dos antigos comics de Jack Kirby e sonha com um dia fazer algo assim. 
Esta é a carta de amor de Rubín a Kirby (e aos super-heróis) com o dinamismo que o velho mestre punha nas suas páginas. Mais, é o mais activo e entusiasta Rubín que já li. As suas obras anteriores parecem estáticas em comparação, a introspecção era muita e parecia ser um explorar de um mundo interior revisto como espectáculo visual para o leitor. Talvez um pouco adolescente... 
Nesta obra Rubín quebra com esse passado, com muita energia e muito movimento e um regresso às convenções - sejam estas as clássicas, sejam da nova mitologia (falo de super-heróis). Até a indumentária das personagens é claramente homenagem ao universo dos super-heróis. 
Portanto, David Rubín gosta de super-heróis e de mitologia e eu posso dizer que o livro não é mau mas sabe a pouco (talvez por isso já estivesse planeada a segunda parte da história) e a grande falha é no enredo simples porque o desenho está de acordo com os padrões a que nos habituou.
A ver se leio o segundo...
Texto original publicado aqui.

21 de Abril de 2014


1 de Março de 2010

"Go to hell."
RICHARD STARK'S PARKER: THE HUNTER
Darwyn Cooke
IDW Publishing, 2009
144 págs., dicromia, capa dura


De regresso a casa para umas férias curtas, encontrei um caderno A4, pautado, de capa preta - o típico caderno que me habituei a usar no liceu.
Em 2010 tive um ano sabático forçado. Foi um ano difícil e comprei umas poucas bds para me ocupar ("Best of 2009: Parker: The Hunter; Asterios Polyp; Pinocchio; Secret Science Society"). Nessa altura a ideia do blogue ganhou mais força (desde 2007 que tenho o blogue registado mas só após 5 anos de hesitações e medos é que o comecei) e tinha decidido escrever algo sobre uma bd que tinha acabado de ler. Acabei por não fazer nada com o texto. Dois anos depois, impulsivamente, como sempre, decidi publicar a primeira postagem que encontram aqui.
Ao folhear o caderno encontrei o seguinte, sem tirar nem pôr.

"Tópicos:
- protagonista difícil de se simpatizar;
- trama simples;
- ficção criminal;
- a arte de Darwyn Cooke - traço reminiscente de Batman: The Animated Series, simplicidade, faz boa transposição para o tempo da narrativa; a escolha de duas cores; storytelling: facilidade evidenciada nas 15 primeiras páginas do livro, que contém apenas duas falas, fluidez de acção."

"A chamada "graphic novel" ganha um lugar de relevo nas vendas da bd, há cada vez mais essa moda. IDW aposta no mercado livreiro em vez do nicho típico da banda desenhada, a loja de especialidade, com um formato dirigido a um público mais "amplo". Esperança que surte efeito."

"Donald Westlake (1933-2008) cria Parker, ladrão profissional, em 1962, vindo a personagem a protagonizar 24 dos 28 livros escritos sob o pseudónimo de Richard Stark. Desde então inúmeras adaptações foram feitas à sua obra (sendo a mais recente Payback,  filme de 1999, protagonizada por Mel Gibson, antes de turpores alcoólicos e comentários anti-semitas). É curioso que até esta adaptação em bd, Westlake não permitiu o uso do nome de Parker em nenhuma delas.
Segundo se diz, a editora IDW estaria interessada em Darwyn Cooke para publicar algo seu e quando questionado sobre o que gostaria de fazer, referiu o nome de Westlake.
A parceria concretizou-se após Westlake ver alguns dos desenhos de Cooke, contudo, o primeiro não veria a versão final da colaboração, já que faleceu em 2008. No entanto, este não será o último volume das aventuras de Parker na banda desenhada, pois já este ano planeia-se publicar  a sequela intitulada Parker: The Outfit, como se pode ver no anúncio na última página do livro."

Riscado de cima a baixo:
"Resumindo, uma história típica de crime que é valorizada pela arte de Darwyn Cooke."

É isso.

19 de Abril de 2014 (2)

2014 parece ser um ano que promete em termos de comics. Abaixo, escrevo sobre alguns projectos que foram ou vão ser publicados este ano e que me chamaram a atenção. Espero fazer deste espaço de antevisão algo regular e de cariz mais universal, embora, devido a limitações pessoais, tenha algum pendor norte-americano.

CELEBRATED SUMMER
Charles Forsman
Fantagraphics Books, 16 janeiro 2014
64 págs., P&B, capa mole

Charles Forsman regressa ao tema da adolescência problemática com o seu traço inspirado em Charles Schultz e enredo centrado no mundo emocional das personagens. Se TEOTFW, publicado o ano passado, for indicativo da qualidade deste novo trabalho, vale a pena ler.

B+F
Gregory Benton
AdHouse Books, 21 janeiro 2014
64 págs., tetracromia, capa dura

Esta co-publicação pela AdHouse Books e as Editions çà et là, de Gregory Benton, parece ser uma história "fluxo de consciência" sobre uma mulher e o seu cão gigantesco num mundo surreal. Não conhecia Benton e o que me atrai neste livro é a arte cartunesca e expressiva, a liberdade das regras narrativas e, claro, as dimensões do livro!

THIS ONE SUMMER
Mariko Tamaki & Jillian Tamaki
First Second Books, 1 maio 2014
320 págs., monocromia, capa mole

Duas amigas pré-adolescentes descobrem o significado de crescer quando passam um Verão atípico juntas. Uma narrativa mais ambiciosa que Skim, na verdade o que me faz querer ler este livro tem mais a ver com o desenho elegante de Jillian do que com a escrita de Mariko...

HOW TO BE HAPPY
Eleanor Davis
Fantagraphics Books, 22 maio 2014
144 págs., tetracromia, capa dura

Eleanor Davis não tem o reconhecimento que merece. A sua arte é deslumbrante e o seu sentido humor, só equiparado à sua capacidade de expressar a condição humana, fazem dela leitura obrigatória. Comprem este livro!

LOSE #6
Michael DeForge
Koyama Press, 9 setembro 2014
52 págs., P&B, floppy

Já escrevi sobre Lose neste blogue e o que se pode esperar da antologia de Michael DeForge é mais do mesmo: visceralidade e desconforto. O "mesmo" de DeForge é qualidade que surpreende pela quantidade de trabalho que desenvolve anualmente.

19 de Abril de 2014

18 de Abril de 2004 (2)

"Never forget that and you'll be just fine..."
FBP #1
Simon Oliver & Robbi Rodriguez
Vertigo Comics, setembro 2013
22 págs., tetracromia, floppy


Federal Bureau of Physics ou FBP ou, como eu gosto de a chamar, "the comic formerly know as Collider", é a série que vem ocupar o vazio que Fringe deixou. Ou pelo menos, é assim que a vejo.
As forças elementares do Universo estão a degradar-se e foi criada uma força de intervenção - o FBP - para resolver situações pontuais que ameacem a população. 
Neste capítulo introdutório somos apresentados a Adam Hardy, filho do professor que nas primeiras páginas nos familiariza com o principal conceito da série. Adam faz parte de uma das unidades do FBP que é chamada a uma escola secundária para solucionar uma "deficiência localizada de gravidade". Como seria de esperar, as coisas complicam-se mas acabam relativamente bem.
Como em Fringe, esta bd vive de um ambiente de pseudociência que entusiasmará os fãs da ficção cientifica, tem alguns elementos de política pelo meio e intriga q.b.. As personagens têm personalidades distintas com potencial de desenvolvimento e o enredo parece subsistir com mais do que um alicerce - este primeiro número indicia uma série de mistérios.
A arte de Rodriguez faz-me pensar em Matteo Scalera (Indestructible Hulk, Black Science) e, como tal, é dinâmica, se bem que pouco aventureira em termos de découpage. A coloração de Rico Renzi é bastante funcional e complementa bem a capa garrida de Nathan Fox.
Como disse, como primeiro número tem várias questões que fazem com que o leitor queira ler o próximo mas é preciso ser fã do género. A experimentar se gostam de ficção científica.

18 de Abril de 2014

17 de Abril de 2014 (2)

"Can't imagine they could end up here."
DEADLY CLASS #1
Rick Remender, Wes Craig e Lee Loughridge
Image Comics, janeiro 2014
32 págs, tetracromia, floppy

A Image Comics está num período renascentista, anda a publicar primeiros números a torto e a direito e, ao contrário de outras editoras, esses números trazem realmente novas histórias e conceitos.
Deadly Class faz parte da fornada de 2014 (escrito por Rick Remender, ilustrado por Wes Craig e colorido por Lee Loughridge) e conta a história de um adolescente sem-abrigo que é convidado a pertencer a uma escola de assassinos.
O assassino adolescente órfão é um conceito que já foi muito bem explorado na bd em outros meios e as novidades aqui não são muitas. A introdução da personagem principal é muito boa - com crítica à América dos anos 80 à mistura - e o diálogo é credível e fluido. 
O desenho de Wes Craig é muito bom e ele tenta algumas técnicas interessantes, por vezes sacrificando o storytelling pelo impacto visual. 
Mas o verdadeiro herói deste comic é Lee Loughridge, cujas cores amplificam o ambiente da história de forma primorosa. O papel do colorista muitas vezes é de menor destaque mas Loughridge é, na minha opinião, essencial para o sucesso deste comic
Resumindo, este primeiro número cumpre bem o seu papel - introduz um novo mundo ao leitor e motiva a comprar o próximo. A experimentar.

17 de Abril de 2014

Após uma longa ausência, regresso a este espaço. Novas responsabilidades, preguiça e pouca motivação impediram-me de continuar com a regularidade, já ténue, deste blogue. 
Dadas as novas circunstâncias, pretendo alterar ligeiramente a estrutura do blogue. Portanto, as, já de si não muito longas, "análises" da bd que leio vêm a ser substituídas por postagens mais curtas e espontâneas; para além disso, pretendo continuar com a exposição de arte "tangencial" de autores de bd e criar um novo espaço - que espero ser semanal - com ligações para notícias ou artigos que julgo interessantes e relacionadas com o nosso pequeno nicho. Peço também a vossa colaboração, se encontrarem algo, seja arte tangencial ou uma notícia/artigo que vos tenha interessado, deixem um comentário ou mandem um mail, obviamente serão creditados com ligação para a vossa forma de apresentação online favorita.

8 de Novembro de 2013

Em 2013 foi a vez de Marco Mendes e Bo Soremsky.
COMIC-TRANSFER
Till Laßman e Ricardo Cabral
Edições Polvo, 2013
168 págs., tetracromia

18,87 euros (sem IVA)


Este fim de semana, dia 10 de novembro, às 15 horas, será lançado no 24º FIBDA o álbum Comic-Transfer, por Till Laßman e Ricardo Cabral e editado pelas Edições Polvo. "Resulta de um intercâmbio artístico luso-alemão, sob a égide do Goethe-Institut Portugal. Teve o seu início com o artista português Ricardo Cabral, que visitou a Alemanha durante duas semanas, em meados de Julho de 2012, passando primeiro por Hamburgo e depois por Berlim, com uma curta passagem pelo Festival de Desenho de Stralsund. Seguiu-se a visita do parceiro de intercâmbio Till Laßmann a Portugal, em Outubro de 2012. Till Laßmann começou a sua viagem no Porto, seguindo depois para Lisboa. Nas páginas deste livro estão reunidas as suas visões, que reflectem a forma como vemos os outros e como os outros nos vêem a nós, as experiências e impressões das cidades visitadas, através do dia-a-dia dos habitantes, dos locais mais apetecíveis, das mulheres nas idas às compras, das vistas panorâmicas dos telhados, das pessoas nos cafés ou simplesmente a passear ao longo do rio..."
Durante este fim de semana Ricardo Cabral estará a dar autógrafos entre as 17 e 19 horas no sítio do costume. 
Há ainda a oportunidade de visitar a exposição "Comic-Transfer - A Minha Cidade Vista Pelos Teus Olhos" onde estão expostos originais do livro e da mesma iniciativa em 2013 cujos participantes foram Marco Mendes e Bo Soremsky. Pode ser que haja livro para o ano e assim aguçam-se apetites.
 É aproveitar que a partir de segunda-feira já não há FIBDA!

13 de Outubro de 2013

"Watta woil, watta woil."
KRAZY KAT
THE COMIC ART OF GEORGE HERRIMAN
McDonnell, O'Connell & De Havenon
Harry N. Abrams, 2004
224 págs., tetracromia

A 13 de Outubro de 1913 estreia-se Krazy Kat no New York Evening Journal. As personagens principais, um(a) gato(a) e um rato tinham a sua origem na strip anterior do autor, George Herriman, "The Dingbat Family", sobre a vida doméstica de uma família e a sua contenda continuada com os vizinhos do andar de cima (mais tarde a strip veio a ser conhecida como "The Family Upstairs"). Aos poucos, a disputa entre o(a) gato(a) dos Dingbat - apelidado(a) Krazy Kat pelo rato - e o seu rival ganhou autonomia dentro da strip e acabou por ter um espaço autónomo a acompanhar as aventuras dos Dingbat. A progressiva emancipação completou-se exactamente há um século.
A história contada em "Krazy Kat" rapidamente sedimentou-se. Resumindo, Krazy está apaixonado(a) pelo rato Ignatz que não o(a) suporta e para demonstrar o sentimento que nutre pelo(a) gato(a), sempre que pode, arremessa-lhe um tijolo à cabeça, acção que Krazy interpreta como demonstração de amor, Offissa Pupp, último vértice do triângulo amoroso, prende Ignatz para proteger Krazy, de quem gosta.
Durante 31 anos temos, praticamente sempre, uma variação deste cenário. A genialidade de Herriman é nunca se repetir apesar da fórmula e ter introduzido idiossincrasias que fazem de "Krazy Kat" uma obra única: o discurso de Krazy, mistura fonética de dialectos e línguas; os cenários inspirados pelo deserto do Arizona, em constante mudança, transfiguram-se de vinheta para vinheta, à volta das personagens e edifícios.
Herriman é ele próprio uma figura interessante, principalmente devido às suas origens confusas, que o identificam como "mulato" no registo de nascimento, sendo mais tarde declarado "caucasiano" no seu certificado de óbito. De vez em quando surgem estas questões de etnia numa ou outra história de Krazy Kat que ganham logo outra profundidade tendo em conta a ambiguidade étnica do autor. Sem falar do género de Krazy que, propositadamente, nunca chega ser estipulado de forma inequívoca.
"Krazy Kat" é um dos grandes clássicos dos comics americanos e a sua influência estende-se até aos nosso dias, repercutindo-se em autores como Chris Ware (autor da série "Acme Novelty Library" e designer da recente colecção da Fantagraphics - "Krazy & Ignatz" - que colige a obra completa de Herriman) ou Patrick McDonnell, autor da série "Mutts", denunciadamente inspirada por "Krazy Kat", e co-autor do livro que devia ser o tema deste post.
Agora é só poupar os 300 euros para poder ter a edição especial (capa dura, páginas maiores) em 3 volumes publicada pela Fantagraphics!